especificidade epistemológica da identidade e da situação gay em
nossa cultura. Ressoante como é para muitas opressões
modernas, a imagem do armário é indicativa da homofobia de
uma maneira que não o pode ser para outras opressões. O
racismo, por exemplo, baseia-se num estigma que é visível, salvo
em alguns casos excepcionais (casos que não são irrelevantes,
mas que delineiam as margens, sem colorir o centro da
experiência racial). O mesmo vale para as opressões fundadas em
gênero, idade, tamanho, deficiência física. Opressões étnicas/
culturais/religiosas, como o anti-semitismo, são mais parecidas,
pois o indivíduo estigmatizado tem pelo menos alguma liberdade
de ação – embora, o que é importante, não se possa garantir
quanta – sobre o conhecimento das outras pessoas acerca de sua
participação no grupo: poder-se-ia “sair do armário” como judeu
ou cigano, numa sociedade urbana heterogênea, de maneira mais
inteligível do que se poderia “sair” como, digamos, mulher, negro,
velho, usuário de cadeira de rodas ou gordo. De qualquer
maneira, uma identidade judia ou cigana (por exemplo) e,
portanto, um segredo ou armário judeu ou cigano seriam
diferentes das versões distintamente gays dessas coisas em sua
clara linearidade ancestral, nas raízes (por mais tortuosas ou
ambivalentes) da identificação por meio da cultura originária que
cada indivíduo tem (no mínimo) na família.
Eve Kosofsky Sedgwick, “Epistemologia do Armário”
(também no 5 dias)