Paulo Jorge Vieira

acordei a pensar nesta frase…

Aquele trem de imagens dolorosas estava eivado da

especificidade epistemológica da identidade e da situação gay em

nossa cultura. Ressoante como é para muitas opressões

modernas, a imagem do armário é indicativa da homofobia de

uma maneira que não o pode ser para outras opressões. O

racismo, por exemplo, baseia-se num estigma que é visível, salvo

em alguns casos excepcionais (casos que não são irrelevantes,

mas que delineiam as margens, sem colorir o centro da

experiência racial). O mesmo vale para as opressões fundadas em

gênero, idade, tamanho, deficiência física. Opressões étnicas/

culturais/religiosas, como o anti-semitismo, são mais parecidas,

pois o indivíduo estigmatizado tem pelo menos alguma liberdade

de ação – embora, o que é importante, não se possa garantir

quanta – sobre o conhecimento das outras pessoas acerca de sua

participação no grupo: poder-se-ia “sair do armário” como judeu

ou cigano, numa sociedade urbana heterogênea, de maneira mais

inteligível do que se poderia “sair” como, digamos, mulher, negro,

velho, usuário de cadeira de rodas ou gordo. De qualquer

maneira, uma identidade judia ou cigana (por exemplo) e,

portanto, um segredo ou armário judeu ou cigano seriam

diferentes das versões distintamente gays dessas coisas em sua

clara linearidade ancestral, nas raízes (por mais tortuosas ou

ambivalentes) da identificação por meio da cultura originária que

cada indivíduo tem (no mínimo) na família.

Eve Kosofsky Sedgwick, “Epistemologia do Armário”

(também no 5 dias)