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Testosterona e outras coisas que tal… Agosto 31, 2011

Posted by paulo jorge vieira in sexualidades e géneros.
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Escreve a Wikipédia que “a testosterona é responsável pelo desenvolvimento e manutenção das características masculinas normais, sendo também importante para a função sexual normal e o desempenho sexual.” E veio isto à baila em torno de uma conversa de café sobre o que é ser-se homem na contemporaneidade. Os debates académicos em torno do tema são divertidos. Mais animados ainda são o modo como estereótipos de masculinidade surgem na esfera pública: o comportamento de inúmeras figuras públicas é muitas vezes avaliado a partir da ausência/presença de determinados níveis de “testosterona”.
A guerra era, no tempo do meu pai, o modo do jovem mancebo (des)fazer-se homem. Por um mero acaso – obrigado J. – reli hoje, por razões académicas, um pedaço António Lobo Antunes. “Os Cus de Judas” é uma das minhas narrativas preferidas da ficção portuguesa. Daí retirei umas citações adequadas ao um estranho sentimento que se tem apoderado de mim:
“As tias avançavam aos arrancos como dançarinas de caixinha de música nos derradeiros impulsos da corda, apontavam-me às costelas a ameaça pouco segura das bengalas, observavam-me com desprezo os enchumaços do casaco e proclamavam azedamente:
– Estás magro como se as minhas clavículas salientes fossem mais vergonhosas que um rastro de baton no colarinho.
[…]
– Felizmente que a tropa há-de torná-lo um homem.
Esta profecia vigorosa, transmitida ao longo da infância e da adolescência por dentaduras postiças de indiscutível autoridade, prolongava-se em ecos estridentes nas mesas de canasta. (ANTUNES, 2004, p. 16).
[…]
Aos domingos, a família em júbilo vinha espiar a evolução da metamorfose da larva civil a caminho do guerreiro perfeito, de boina cravada na cabeça como uma cápsula, e botas gigantescas cobertas da lama história de Verdun, a meio caminho entre o escuteiro mitómano e o soldado desconhecido de Carnaval (ANTUNES, 2004, p. 20).
[…]
De facto e consoante as profecias da família, tornara-se um homem: uma espécie de avidez triste e cínica, feita de desesperança cúpida, de egoísmo, e da pressa de me esconder de mim próprio, tinha substituído para sempre o frágil prazer da alegria infantil, do riso sem reservas, nem subentedidos, embalsamados de pureza, e que me parece escutar, sabe, de tempos a tempos, à noite, ao voltar para a casa, numa rua deserta, ecoando nas minhas costas numa cascata de troça. (ANTUNES, 2004, p. 31).

(uso a edição de 2004: ANTUNES, António Lobo. Os Cus de Judas. Lisboa: Publicações Dom Quixote)

(também no 5 dias)

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