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“Os polícias disseram que nós, africanos, temos de morrer” Fevereiro 10, 2015

Posted by paulo jorge vieira in Uncategorized.
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Por um questão de acesso facilitado, e porque não poderemos deixar de publicitar e nos empenhar nesta luta, republico aqui a reportagem de Joana Gorjão Henriques (do jornal Público) sobre a situação de racismo que se viveu, e vive, fruto de um injustificado “fechar de olhos” da sociedade no seu todo e, em especial das insituições que deveriam proteger e promover os Direitos Humanos e a Igualdade.

Reportagem

“Os polícias disseram que nós, africanos, temos de morrer”

Desde quinta-feira que a Cova da Moura tem estado nas notícias. Cinco jovens detidos pelos agentes da esquadra da PSP de Alfragide acusam a polícia de tortura e racismo. Pontapés, tiros, e violência verbal fazem parte da acusação. “Vocês têm sorte que a lei não permite, senão seriam todos executados”, dizem ter ouvido. Ou: “Deviam alistar-se no Estado Islâmico”. PSP e IGAI estão a investigar.

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Jailza mostra a sequela de uma das balas de borracha Enric Vives-Rubio

Os habitantes da Cova da Moura estão habituados a ver polícia neste bairro da Amadora. Volta e meia aparecem para fazer rusgas. Na quinta-feira, 5 de Fevereiro, “por volta do meio-dia”, Bruno Lopes estava na Rua do Moinho quando “pelo menos seis” agentes da polícia abordaram “duas pessoas”.

Um dos polícias começa a rir para Bruno, que vira a cara. Bruno conversa com o primo e ri-se com ele. O polícia diz-lhe: ‘Estás-te a rir, olha que podes perder o sorriso”. O primo sugere que entrem no café, e em crioulo, Bruno diz que não tem de sair de onde está. O polícia quer saber do que falam, e encosta-o à parede. Vêm mais dois agentes que o agridem. Bruno não ofereceu resistência alguma. Isto é versão de Bruno Lopes, 24 anos.

Da varanda de sua casa, Jailza Sousa, 29 anos, cabo-verdiana voluntária no Moinho da Juventude, vê-o “a levar chapadas”, e Bruno sem reagir, “nada que desse origem àquilo tudo”. Bruno ouviu uma voz feminina a gritar aos polícias: “Parem”. De nada serviu.

– Começaram a bater até fazer sangue, lembra Jailza.

Na rua em baixo, em casa, Celso Lopes ouve um, dois, três, quatro, cinco disparos.

– O policial apontou para mim e disparou uma vez, tornou a carregar e a disparar, diz Jailza, com os cartuchos das balas de borracha na mão. O meu filho viu, está traumatizado.

Bruno Lopes é algemado e levado para a esquadra de Alfragide, a cerca de um quilómetro dali.

– Bateram-me com o cassetete, davam pontapés, conta. – Diziam-me para me candidatar ao Estado Islâmico. Chamavam pretos, macacos, que iam exterminar a nossa raça.

Quatro dias depois, na segunda-feira, junto ao café ainda se vêem umas pingas de sangue. Jailza tem duas marcas das balas de borracha com que foi atingida: uma na nádega, outra no peito. Mostra-nos as sequelas, envergonhada, numa das salas de leitura da biblioteca do Moinho.

Bruno seria libertado na sexta-feira. Foi acusado na altura de ter lançado uma pedra e partido um vidro da carrinha da polícia. Nega tudo. “Se estava a ser revistado, como é que podia ter lançado uma pedra?”

Abertura de inquérito
O PÚBLICO deslocou-se à esquadra de Alfragide para confrontar os polícias com todas as acusações que aqui reproduzimos, mas o chefe desta unidade remeteu para as relações públicas da PSP. Por seu lado, a direcção nacional desta polícia garantiu-nos que o incidente foi “objecto do tratamento previsto para qualquer situação de acção/intervenção policial”. Abriu um inquérito interno. Aguarda os trâmites legais e não faz comentários, mesmo depois de confrontada com as acusações. A Inspecção-Geral da Administração Interna (IGAI) também abriu um inquérito à actuação da PSP.

O Moinho da Juventude, projecto comunitário que existe há 30 anos na Cova da Moura, já recebeu diversos prémios como o de Direitos Humanos da Assembleia da República. Flávio Almada, conhecido como Lbc na sua pele de rapper, membro da direcção, é formado em tradução, está a preparar uma candidatura a um doutoramento, e participou em projectos como o ALICE, coordenado por Boaventura de Sousa Santos. Trabalha com crianças e jovens e muitas vezes Jailza ajuda-o. Cruzou-se com ela na quinta-feira e viu-a a chorar. Perguntou o que tinha acontecido. Decidiu ir à esquadra perceber o que se passara com Bruno. Celso Lopes, também da direcção do Moinho, investigador social, acompanhou-o. Juntaram-se mais amigos de Bruno.

– Chegámos à porta da esquadra e estavam três agentes. Dissemos que éramos do Moinho e queríamos falar com o chefe. A abordagem deles foi logo agressiva: ‘Esperem na porta, não vão entrar’. Dois foram para dentro e gritaram: ‘Malta! Disseram: ‘basa daqui’.

Flávio não consegue reproduzir com detalhe tudo o que se passou, pois tudo se passou muito rápido. Garante que não houve qualquer tipo de provocação, agressão, violência.

– Não somos malucos. Sabemos a intervenção que eles fazem.

Sabe que ouviu um primeiro tiro e depois outro e Celso atingido na perna. Celso diz que mais de uma dezena de agentes apareceram a seguir. E que no meio dos insultos foi pontapeado até que:

– O polícia que me baleou duas vezes fez um disparo e fez ricochete e atinge-me na perna. Quando me viro para dizer ao Flávio, ele dá um segundo tiro na perna. Dentro da esquadra há um hall que tem uma secretária e mandaram-me contra um pneu. Mas depois o polícia disse: ‘Não, a merda tem que estar no chão.’

Flávio continua:

– Eu perguntei: ‘o que fizemos? Não estamos a reagir, a faltar ao respeito com ninguém’. E começaram-me a bater, fiquei no chão, colocaram as algemas, depois perdi a noção porque eram pontapés e socos e já não sabia quantos eram. Disseram: ‘O lixo e cães é para o chão’. A tortura continuou: pontapés, socos, cara no chão, parti um dente – e mostra-o.
Diziam-lhes: “Vocês têm sorte que a lei não permite, senão seriam todos executados”. E: “Deviam alistar-se no Estado Islâmico”.

Entretanto, Rui Moniz tinha ido tratar de umas papeladas numa loja perto, e foi “apanhado” pelos polícias, também sem justificação, diz. O jovem, que sofreu um AVC e tem um mão imóvel, acusa igualmente os agentes de lhe baterem.

– Começaram a encher-me de pontapés, arrastaram-me até à esquadra. Mandaram levantar a cara, e depois deram socos. Um deles vira-se e diz: ‘esse aí é português.’ E outro: ‘Não, ele é pretoguês’.

Natural de Cabo Verde e a viver em Portugal há 12 anos, Flávio acusa a polícia de lhe ter ficado com a autorização de residência e de o ter impedido de fazer uma chamada para o advogado.

–  A única coisa que nos deu vantagem é que antes de ir à esquadra eu liguei para o Mamadou Ba, do SOS Racismo, e para o Jakilson (da biblioteca do Moinho da Juventude). Passou tanto tempo que as pessoas começaram a preocupar-se.

A PSP, entretanto, nessa tarde, emitia um comunicado citado pela Lusa, acusando um “gang” da Cova da Moura de invadir a esquadra. Celso, Flávio, Paulo, Miguel e Rui seriam detidos. Foram levados para a super esquadra da Damaia e depois para o hospital Amadora-Sintra.

O Ministério Público pediria a sua prisão preventiva por resistência e coacção a funcionário, mas no sábado o Tribunal de Sintra libertou-os determinando a medida de coacção menos gravosa, o Termo de Identidade e Residência. Eles, por seu lado, apresentaram uma queixa-crime por tortura no Ministério Público de Almada. Acusam a polícia de difamação e racismo institucional pelo que se passou segundo as suas versões.

– Como é que se caiu no discurso que fomos invadir uma esquadra?, questiona Flávio. Sou membro da direcção do Moinho, trabalhei sempre com jovens na prevenção, fiz voluntariado na prisão para trabalhar a inclusão através da arte, e agora vou invadir uma esquadra?

Flávio lembra:

– Consegui ver a expressão de um dos polícias, quando disse com uma convicção que eu não consigo reproduzir: ‘Se eu mandasse vocês seriam todos exterminados. Não sabem o quanto eu odeio vocês, raça do caralho, pretos de merda’. Nunca tinha visto um ódio, em estado bruto, daquela forma. Nunca tinha visto e já vi muita coisa. A expressão dele era um ódio completamente cego e aquilo assustou-me: como é que uma sociedade anda a produzir indivíduos deste tipo?

Recorda também de um deles dizer, sobre ele: “Apanha aquele filho da puta que tem a mania que é inteligente”.

Celso:

– Disseram-nos várias vezes que nós, os africanos, temos que morrer. Que se a legislação permitisse nos executariam, que devíamos estar pendurados pelos pés.

Já depois de mais de duas horas de entrevista a explicar-nos o que aconteceu, Flávio desabafa, com Celso, que é necessário manter vivos os acontecimentos mas que não querem estar a toda a hora a lembrá-los.

– Deixa sequelas, diz Flávio. A ficha vai caindo. Fico indignado. E alguém tem que ser responsabilizado. Tenho curso superior, sou activista, conheço muita gente e muita gente acredita em mim. Agora um jovem que tenha pelo menos um antecedente criminal: ninguém o iria apoiar.

O SOS Racismo marcou uma concentração de protesto em frente ao Parlamento, em Lisboa, para a próxima quinta-feira, dia 12, às 17h.


NOTA:

Acerca desta última frase da reportagem publico aqui o comentário do dirigente do SOS Racismo Mamadou Ba:

Uma jornalista faz uma peça, onde atribui responsabilidade a uma organização sem nunca ter falado com ninguém desta organização! Isto é mais do que incompetência é falta de respeito institucional. Quando o Jornal Público diz que o SOS Racismo convoca a concentração contra a violência policial, o que “esquece” de dizer que é a iniciativa é colectiva e é de muitas outras organizações e pessoas que decidiram a ir a rua dizer Basta à Violência Policial e ao Racismo! O SOS está neste combate com orgulho e muita deteminação em convergência com muitas outras organizações e pessoas

Comentários»

1. pedro_jose - Fevereiro 10, 2015

Que cena horrosa! Esses agentes têm que ser julgados e responsabilizados pelos seus actos o quanto antes.

paulo jorge vieira - Fevereiro 10, 2015

quinta feira. 17:00 Assembleia da República. lanço daqui um apelo especial ao “povo LGBTIQ”. estar aqui é essencial para nós. espero que percebam o porquê!!!

https://www.facebook.com/events/336775036528312/?ref=22

pedro_jose - Fevereiro 10, 2015

Claro que sim, a luta pelo respeito humano é una! Estas questões raciais ofendem qualquer um que defenda os direitos humanos, sejam elas de que natureza forem.

2. paulo jorge vieira - Fevereiro 10, 2015

a solução passa por estarmos quinta feira às 17:00 na Assembleia da República. lanço daqui um apelo especial ao “povo LGBTIQ”. estar aqui é essencial para nós. espero que percebam o porquê!!!

https://www.facebook.com/events/336775036528312/?ref=22


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