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(pmr22) a esperança Abril 24, 2015

Posted by paulo jorge vieira in poesia.
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AMANECER-pd

Pois hoje foi assim. Decidi começar a ter esperança.
Não há razão nenhuma. Foi um ato do acaso,
uma esquina que se dobra e vem de lá
a maravilhosa irracionalidade cor de pêssego.
Não foi a decisão, não foram os urros de esforço
no ginásio ou a vertical do acrobata que não cai.
Não foi a construção de uma vontade. Talvez
se tenha agitado o animal do nada, esse omnívoro
que trago sob a pele e que me apaga, como
um sacristão que extingue as velas por ofício.
Garanto, se me abrissem ao meio com uma serra,
só se ia ver a areia da ampulheta; e poder-se-ia
medir o vazio absoluto com retortas e um bom
bico de Bunsen. Mas esta esperança aconteceu.
Pergunto-me se fui alvo da energia que aparece
num gordo grão de março. Ou se o raio cósmico
de uns olhos me transformou num outro mundo.
Seria o rude inesperado da tolice? Gostei
de ouvir a bátega da chuva? – a força ingénua
da água faz-nos sentir quase invencíveis.
Pois hoje decidi ter esta esperança, porque
nada nos sustém: no meu caminho, só existe
um candeeiro de onde saem as sombras.
O que procuro não existe na lógica do mundo
nem nos mapas ensanguentados da rotina.
Mas não é aí que está. Nem dentro de nós mesmos.
Nem em nada. Apenas decidi que hoje era o dia.

(Isabel Cristina Pires)

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