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… agruras! Dezembro 12, 2015

Posted by paulo jorge vieira in literatura, Uncategorized.
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arvore-de-natal.jpg

 

“Escuta então uma voz longínqua, vinda da eternidade do presente, que lhe segrega as agruras da vida. (…) E a tragédia suprema acomete-o em Dezembro, e no período que entusiasma os velhos como ele, mas que se lhe converte em quadra de irreversível desilusão. Põe-se a árvore de Natal na sala de jantar, e ele auxilia criteriosamente o Pai na colocação dos enfeites, bolas brilhantemente coloridas que não raro se lhes desfazem nas mãos, mariposas e cogumelos de baquelite, anjos recortados em cartão, e providos de asas que roçam a terra, fios prateados, neve a fingir que lhe pica os dedos, e sobre tudo isto a fulgurante estrela que acende e apaga sem descanso. O Pai desde por fim do escadote, senta-se com ele ao colo na poltrona ao lado, e sopra-lhe junto da orelha,

«O Menino não é parvo, e já sabe muito bem que não é o Menino Jesus que traz os presentes. Ele apenas dá ao Pai a saúde para trabalhar, e ganhar o dinheiro com que os compra.»

A árvore de natal vai encolhendo lentamente, despoja-se dos seus ornamentos, e torna-se um desplumado arbusto, metido num vaso rachado. O velho encaminha-se para o escritório da casa demolida, acomoda-se com um gemido á secretária, e rabisca esta frase,

«E o Príncipe transformou-se em sapo.»”

Mário Cláudio, “Astronomia”, pp.131

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