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regressarei com o lume do rio a guiar-me Maio 15, 2017

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prometo-te que uma noite voltarei, sem bússola, regressarei com o lume do rio a guiar-me, e que os olhos pousarão nos teus olhos este frémito de água. acredito nas ruas que existem por detrás dos óculos dos marinheiros, onde descansa um barco e tu foges, não acredito em ti. um fio de água enforca-nos. foi então que resolveste prosseguir viagem sozinho, com a tua adolescência um pouco ferida. eu acreditei no fogo e no silêncio que, de manhã lavam os corpos, tornando-os de novo navegáveis. esperei, ainda te espero. ando por aí a mariscar com os nativos, escondendo do mundo a tristeza que me devora o corpo.

Al Berto, Excerto de «Roulottes da Noite de Lisboa»

 

o magnífico arco para iniciar o poema Fevereiro 28, 2016

Posted by paulo jorge vieira in literatura, Uncategorized.
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disp

 

“Quantos metros quadrados de terreno te separam do ódio, ou do elogio? 

No entanto sabes que a lâmpada acesa é o farol para quem se aproxima da casa. 

Depois, o tiro na têmpora. O corpo dobrado, o sangue alimentando o coração surdo da terra.

O magnífico arco para iniciar o poema.”

 

Al Berto, “Dispersos”, Assírio e Alvim, 2007, pp.39

(pmr23) escrevo-te a sentir tudo isto Setembro 13, 2015

Posted by paulo jorge vieira in poesia.
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    escrevo-te a sentir tudo isto
    e num instante de maior lucidez poderia ser o rio
    as cabras escondendo o delicado tilintar dos guizos nos sais de prata da fotografia
    poderia erguer-me como o castanheiro dos contos sussurrados junto ao fogo
    e deambular trémulo com as aves
    ou acompanhar a sulfúrica borboleta revelando-se na saliva do lábios
    poderia imitar aquele pastor
    ou confundir-me com o sonho de cidade que a pouco e pouco morde a sua imobilidade

    habito neste país de água por engano
    são-me necessárias imagens radiografias de ossos
    rostos desfocados
    mãos sobre corpos impressos no papel e nos espelhos
    repara
    nada mais possuo
    a não ser este recado que hoje segue manchado de finos bagos de romã
    repara
    como o coração de papel amareleceu no esquecimento de te amar
 

in «O Medo» – «Trabalhos do Olhar», 1976/82

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(pmr21) recado Março 1, 2015

Posted by paulo jorge vieira in poesia.
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(hoje estou poesia. os poetas fazem-me estar poesia)

alb

ouve-me
que o dia te seja limpo e
a cada esquina de luz possas recolher
alimento suficiente para a tua morte
vai até onde ninguém te possa falar
ou reconhecer – vai por esse campo
de crateras extintas – vai por essa porta
de água tão vasta quanto a noite
deixa a árvore das cassiopeias cobrir-te
e as loucas aveias que o ácido enferrujou
erguerem-se na vertigem do voo – deixa
que o outono traga os pássaros e as abelhas
para pernoitarem na doçura
do teu breve coração – ouve-me
que o dia te seja limpo
e para lá da pele constrói o arco de sal
a morada eterna – o mar por onde fugirá
o etéreo visitante desta noite
não esqueças o navio carregado de lumes
de desejos em poeira – não esqueças o ouro
o marfim – os sessenta comprimidos letais
ao pequeno-almoço

Al  Berto in Horto de incêndio, Lisboa: Assírio & Alvim, 1997

(pmr15) Foram Breves e Medonhas as Noites de Amor Fevereiro 1, 2015

Posted by paulo jorge vieira in literatura, poemas.
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peras

(fotografia de rachelbourgault)

Foram Breves e Medonhas as Noites de Amor

foram breves e medonhas as noites de amor
e regressar do âmago delas esfiapava-lhe o corpo
habitado ainda por flutuantes mãos

estava nu
sem água e sem luz que lhe mostrasse como era
ou como poderia construir a perfeição

os dias foram-se sumindo cor de chumbo
na procura incessante doutra amizade
que lhe prolongasse a vida

e uma vez acordou
caminhou lentamente por cima da idade
tão longe quanto pôde
onde era possível inventar outra infância
que não lhe ferisse o coração

Al Berto, “O Medo”