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da mudança e da permanência Agosto 6, 2017

Posted by paulo jorge vieira in literatura, livros, Uncategorized.
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“O que causará a visão insólita de um sorriso de um estranho, cruzado há séculos numa rua anónima e desde então esquecido? Porque ressurge tão vívida e colorida a imagem de cestos de uvas numa vinha? A de uma sala onde só estive momentos? Que mecanismo me faz ouvir de novo o ladrar de um cão numa noite de inverno?

(…) O que ainda me resta será provavelmente feito de trivialidade, rotina, medo crescente. Mais também não espero.

Enquanto poder manterei este vadiar solitário, que se tornou um calmante. Vou caminhando e pouco a pouco pesam-me menos as culpas, surpreendo-me por vezes a sorrir. Descrente de que possam ser tão exíguas as diferenças entre o eu do menino e o do homem quase velho.

Então não mudei com o passar dos anos? No essencial, pouco ou nada. E os muros da prisão em que me sinto, talvez os não tenha levantado eu próprio, como pensei. Mais certo é ter nascido dentro deles, tomando por liberdade o que não passava de quimera.”    

“A Amante Holandesa” de J. Rentes de Carvalho, edição de bolso da Bertrand Editores, 2016, pp. 31-32 (li de 21/07 a 22/07 de 2017)

 

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