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um dia explodo em verbo Maio 15, 2017

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Aquele poema que quis escrever não sai da minha cabeça.

Ficou preso. Incapaz de se tornar verbo. Preso na minha incapacidade de perder o medo. E de ter a coragem de vomitar a alma.

Mas… esse medo é demasiado presente. Demasiado aqui. Demasiado paralisante. Demasiado…

Um dia, quem sabe! Um dia, a voz grita. Um dia explodo em verbo. E assim me faço algo melhor.

Um dia…

(pmr 27) desse lado o mar sobe ao coração Março 12, 2016

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peso

QUASE BRANCO

 

Caminha devagar:

desse lado o mar sobe ao coração.

Agora entra na casa,

repara no silêncio, é quase branco.

Há muito tempo que ninguém

se demorou a contemplar

os breves instrumentos do verão.

Pelo pátio rasteja ainda

o sol. Canta na sombra

a cal, a voz acidulada.

 

Eugénio de Andrade in “O Peso da Sombra”, Assírio e Alvim, Lisboa, 2015, pp.59

eugenio

:

(pmr25) ao espelho Fevereiro 28, 2016

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clara

(…)

Ver-me ao espelho neste momento é ter sido agora.

 

Ter sido em simultâneo com a imagem de eu ser,

ou ser na decalagem do reflexo de ter sido;

 

ver-me e saber que não sou quem eu vejo,

que a imagem de mim é vítrea miragem,

 

que o meu corpo reflectido é estilhaço de cristal

no passado ainda próximo onde o presente é vivido.

 

O reflectido já de si está perdido de antemão –

ou estaria se o nácar não brilhasse toda a tarde

 

na luz madrepérola que cintila no espelho,

iluminando o instante em que já não sou eu.

 

Frederico Lourenço, “Clara suspeita de luz”, Caminho, 2011, pp.26

 

escuro, ou um céu tão côr de sangue Janeiro 18, 2016

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escuro

o livro de poesia que leio.o livro que ontem me acompanhou na tentativa de dormir.a poesia de Ana Luísa Amaral. e o seu fulgor em torno dos tempos que vivemos, e dos quotidianos vazios desta temporalidade cheia de luz, mas onde o escuro nos abre mais a visão do “real”.

DAS MAIS PURAS MEMÓRIAS: OU DE LUMES

Ontem à noite e antes de dormir,
a mais pura alegria

de um céu

no meio do sono a escorregar, solene
a emoção     e a mais pura alegria
de um dia entre criança e quase grande  

e era na aldeia, acordar às seis e meia da manhã, 
os olhos nas portadas de madeira, o som
que elas faziam ao abrir, as portadas
num quarto que não era o meu, o cheiro
ausente em nome

mas era um cheiro
entre o mais fresco e a luz
a começar     era o calor do verão,
a mais pura alegria

um céu tão côr de sangue
que ainda hoje, ainda ontem antes de dormir,
as lágrimas me chegam como então, e de repente,
o sol como um incêndio largo
e o cheiro     as cores

Mas era estar ali, de pé, e jovem
e a morte era tão longe,
e não havia mortos nem o seu desfile,
só os vivos, os risos, o cheiro
a luz

era a vida, e o poder de escolher, 
ou assim o parecia:

a cama e as cascatas frescas dos lençóis
macios como estrangeiros chegando a país novo,
ouas portadas    abertas de madeira
e o incêndio     do céu

Foi isto ontem à noite,
este esplendôr no escuro e antes de dormir.

 

ala

“Escuro” de Ana Luísa Amaral, Assírio e Alvim, 2014

(pmr24) aos poucos foram sendo conhecidos juntamente Outubro 3, 2015

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Aos poucos foram sendo conhecidos juntamente

Nos ríspidos círculos da classe a que pertenciam

Aos poucos também, a troco da paga decorativa

De vários livros de verso e alguns de ensaio,

Atenuaram-lhes as consabidas ironias e acusações.

Com o tempo vieram as fotografias nos circuitos

De massificação, chegou a haver semanas em que padeciam

Escritos elogios que davam notoriedade sem suspeita.

Nas pistas múltiplas das artes e das noites,

Até antigos desconhecidos, até estáveis malquerentes

Diziam: “os dois poetas”. Antes queriam

Ser tratados pelo nome ou pelo só indicativo

Da profissão que padeciam por a reconhecer

O melhor lenitivo para a obsessiva

E neurotizante dedicação em exclusivo

À chamada profissionalização dos escritores:

«os dois poetas», contudo, semi-servia

para neutralizar outras sevícias.

Mas quando os carros exigiam marcações

na empresa dum mecânico vizinho

às vezes no telefone pousado chamavam

com voz abafada pelo patrão: são «os dois paneleiros»

Embora sempre afável atendesse às avarias.

A voz voava do recanto de contabilidade

forrado a calendários com poses pneumáticas

por sobre tubos de escape, soldaduras, jactos, latões.

baterias, broquins, desperdícios, alavancas;

e a gordura negra, um filtro gasto, malsão.

Assim os conheciam por lá, quiçá por outros becos.

E ambas as designações os faziam sorrir.

Mas se fossem de repartição ou a prazo numa firma

Ou até doutra mecânica qualquer? Ou de pequena cidade?

Ou de grupo de jardim com reformados?

Trata-se, é claro, da inútil função social da poesia.

Joaquim Manuel Magalhães

In Alguns Livros Reunidos, pg 124 – 125, Contexto, Lisboa, 1987

(pmr23) escrevo-te a sentir tudo isto Setembro 13, 2015

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escr

    escrevo-te a sentir tudo isto
    e num instante de maior lucidez poderia ser o rio
    as cabras escondendo o delicado tilintar dos guizos nos sais de prata da fotografia
    poderia erguer-me como o castanheiro dos contos sussurrados junto ao fogo
    e deambular trémulo com as aves
    ou acompanhar a sulfúrica borboleta revelando-se na saliva do lábios
    poderia imitar aquele pastor
    ou confundir-me com o sonho de cidade que a pouco e pouco morde a sua imobilidade

    habito neste país de água por engano
    são-me necessárias imagens radiografias de ossos
    rostos desfocados
    mãos sobre corpos impressos no papel e nos espelhos
    repara
    nada mais possuo
    a não ser este recado que hoje segue manchado de finos bagos de romã
    repara
    como o coração de papel amareleceu no esquecimento de te amar
 

in «O Medo» – «Trabalhos do Olhar», 1976/82

CloseupBerto

em memória das palavras de Herberto Helder Março 24, 2015

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em memória das palavras de Herberto Helder
hh

As Palavras

Ficarão para sempre abertas as minhas
salas negras.
Amarrado à noite,
eu canto com um lírio negro sobre a boca. Com a lepra na boca,
com a lepra nas mãos.
Este mamífero tem sal à volta,
este mineral transpira, a primavera precipita-se.

Com a lepra no coração.
Mais de repente,
só chegar à janela e ver uma paisagem tremendo
de medo.

E uma vida mais lenta
só com uma estrela às costas,
uma tonelada de luz inquieta,
uma estrela respirando como um carneiro
vivo. Igual a esta espécie de festa dolorosa,
apenas um ramo de cabelos violentos
e o seu odor a pimenta,
no lado escuro
como se canta que as salas vão levantar
o seu voo.

Ficarão para sempre abertas estas mãos exageradas
em dez dedos com sono,
como uma rosa acima do pénis.

Ao cimo do caule de sangue,
essa flor confusa.
Um equilíbrio igual,
só a estrela ao cimo do êxtase.

Só alguma coisa parada no cimo de uma visão
tremente.
A primavera, que eu saiba,
tem o sal como cor imóvel,

Por um lado entra a noite,
assim de súbito negra. De uma ponta à outra enche-se o espaço
aplainando tábuas.
Rasga-se seda para aprender o ritmo.
Abraço um corpo com as camélias
a arder.

Abertas para sempre as negras partes
de mais uma estação.

Semelhante a isto
as mulheres andam pelas galerias transparentes,
e o palácio queima a noite onde estou
cantando.

É possível ainda cortar ao meio o ofício de ver —
e num lado há espelhos bêbedos,
no outro um cardume ilegível de sons
obscuros.

Sabe-se então pelo silêncio em volta,
sabe-se em volta que são lírios
sonoros.

Passando
as mulheres colhem estes sons irrompentes,
e as mãos ficam negras junto à beleza
insensata.

Elas sorriem depois com um talento
terrível.
Levamos às costas um carneiro palpitante.

Pesa tanto uma estrela
quando se acorda nas salas negras abertas de par em par,
e as mãos agarram um ramo de cabelos dolorosos,
e sobre a boca um lírio em brasa,
branco, branco,

que não nos deixa respirar.
A lepra na boca,
que não nos deixa respirar.

Um ramo de lepra contra o corpo,
como isto então só o movimento de águas obscuras
pelos canais de um canto,
como um palácio de salas negras abertas
para sempre.

Este animal respira como um espelho de pé,
no ar,
no ar.

“Baba de moço” – nova edição Fevereiro 24, 2015

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fim de feira

nos bares da cidade
as bichinhas frutificam
cheirando a polo e dolce&gabbana
no final da noite
ávidas suadas incansáveis
caem podres
entre as pernas
dos michês

baba

Este poema de Aymmar Rodriguéz faz parte do livro de poesia “Baba de Moço” re-editado recentemente pela INDEX ebooks. Esta é a terceira edição deste livro, revista e aumentada, num exclusivo desta editora.

Baba de moça” é um famoso doce da culinária brasileira. Mas na poética debochada de Aymmar Rodriguéz a receita transformou-se numa curiosa publicação que já rendeu duas edições – e que agora chega à terceira, revista e aumentada, com exclusividade para a INDEX ebooks.

Nos ingredientes do Baba de Moço de Aymmar estão a ironia e o erótico em altas doses, o obsceno servindo como crítica às mazelas quotidianas: fanatismo religioso, homofobia, violência, consumismo, alienação. O leitor não encontrará doçura nos poemas que compõem este Baba. Não é poesia para estômagos delicados, mas sim para os que acreditam na Arte como veículo de transformação: “vamos acreditar / na descrença absoluta / recriar o mundo”. Apesar da rebeldia, o apimentado Baba de Moço não deixa de ser uma opção apurada para os paladares mais exigentes.

A versão em ebook custa apenas 1,00 €, sendo possível a compra também da versão em papel (print-on-demand). Mais informações aqui!

(pmr16) Are Friends Delight or Pain? Fevereiro 8, 2015

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Are Friends Delight or Pain?

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Are Friends Delight or Pain?
Could Bounty but remain
Riches were good—

But if they only stay
Ampler to fly away
Riches are sad.

Emily Dickinson (1830 – 1886)

(pmr15) Foram Breves e Medonhas as Noites de Amor Fevereiro 1, 2015

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peras

(fotografia de rachelbourgault)

Foram Breves e Medonhas as Noites de Amor

foram breves e medonhas as noites de amor
e regressar do âmago delas esfiapava-lhe o corpo
habitado ainda por flutuantes mãos

estava nu
sem água e sem luz que lhe mostrasse como era
ou como poderia construir a perfeição

os dias foram-se sumindo cor de chumbo
na procura incessante doutra amizade
que lhe prolongasse a vida

e uma vez acordou
caminhou lentamente por cima da idade
tão longe quanto pôde
onde era possível inventar outra infância
que não lhe ferisse o coração

Al Berto, “O Medo”