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(np) um dia, um poema Novembro 21, 2018

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Night-Grove1

Um dia. Um livro de poemas. Uma pausa de almoço indubitavelmente marcada pelo poema que li. E reli. Só o poema me alimentou neste dia. Um dia. Um dia tranquilo. Um dia de poemas.

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o poema é o que no homem para lá do homem se atreve Setembro 13, 2018

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natalia-correia.jpg

Natália Correia (13/09/1923-16/03/1993)

O poema
O poema não é o canto
que do grilo para a rosa cresce.
O poema é o grilo
é a rosa
e é aquilo que cresce.

É o pensamento que exclui
uma determinação
na fonte donde ele flui
e naquilo que descreve.
O poema é o que no homem
para lá do homem se atreve.

Os acontecimentos são pedras
e a poesia transcendê-las
na já longínqua noção
de descrevê-las.

E essa própria noção é só
uma saudade que se desvanece
na poesia. Pura intenção
de cantar o que não conhece.
Natália Correia, em “Poemas”. 1955.

(pmr) … nada quero, tudo enjeito, o maior bem me aborrece… Junho 19, 2018

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pass

 

Nada quero, tudo enjeito,

o maior bem me aborrece,

o prazer me entristece

e o viver, porque é sujeito

a quem dele assim se esquece:

se morro acaba o mal,

fim não queria ver;

se vivo, o padecer

desta dor é tão mortal

que me não posso valer.

 

(poema anónimo português do século XVI)

“Mancebos de longas tranças enforcados em gravatas vão depauperando as danças com os pés aristocratas” Dezembro 7, 2017

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ary

Se o “poeta maldito” da Lisboa dos anos 60/70 fosse vivo completaria hoje 80 anos. Que enorme prazer é ler (e ouvir) Ary dos Santos. Hoje como sempre!

 

LISBON BY NIGHT

Sexofone——–saxofome
aqui jazz a humanidade
sepulcro de pedra-pomes
duma pseudo euro-cidade.

Antro de feras criadas
entre manteiga e obuses
cansadíssima corrida
de modernas avestruzes.

Na cave do cio soa
um rumor acutilante
faca—-pássaro—-que voa
em seu espaço percutante.

Sexofone——–saxofome
agulha de tédio e ritmo
ninguém ouve—-ninguém come
a noite não tem princípio.

Mancebos de longas tranças
enforcados em gravatas
vão depauperando as danças
com os pés aristocratas.

Megalómanos artistas
ademaneiam poemas
enquanto velhas coristas
coçam glórias e eczemas.

Um canceroso rebenta
seu tumor de nicotina.
Uma puta seca tenta
suicidar a vagina.

Sexofone——–saxofome
o banqueiro está de esperanças
foram-lhe ao rabo do nome
mais de um milhão de crianças.

Seus olhos de rã repleta
batraqueiam um efebo
sua pupila secreta
rumina bolas de sebo.

Entanto a noite esfaqueia
o ventre das virtuosas
senhoras com pé de meia
que bebem água de rosas.

Das tripas lhe faz um nó
dos ovários um apito.
Estou tão só que me faz dó
solfeja seu pito aflito.

Sexofone——–saxofome
um continente castrado
vai desesperando de um lume
nunca mais incendiado.

Fenícios celtas e godos
odeiam seus próprios corpos.
Agora vingam-se todos
do peso de estarem mortos.

Mortos da morte mais lenta
que é possível conceber-se
dilacerada placenta
de estando morto——nascer-se.

 

(pmr32) eu escrevi um poema triste  Setembro 10, 2017

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Tristeza

Eu escrevi um poema triste 
E belo, apenas da sua tristeza. 
Não vem de ti essa tristeza 
Mas das mudanças do Tempo, 
Que ora nos traz esperanças 
Ora nos dá incerteza… 
Nem importa, ao velho Tempo, 
Que sejas fiel ou infiel… 
Eu fico, junto à correnteza, 
Olhando as horas tão breves… 
E das cartas que me escreves 
Faço barcos de papel! 

Mário Quintana, in ‘A Cor do Invisível’

(pmr31) o corpo não espera Setembro 9, 2017

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the_masculine_mystique

 

O corpo não espera. Não. Por nós
ou pelo amor. Este pousar de mãos,
tão reticente e que interroga a sós
a tépida secura acetinada,
a que palpita por adivinhada
em solitários movimentos vãos;
este pousar em que não estamos nós,
mas uma sêde, uma memória, tudo
o que sabemos de tocar desnudo
o corpo que não espera; este pousar
que não conhece, nada vê, nem nada
ousa temer no seu temor agudo…

Tem tanta pressa o corpo! E já passou,
quando um de nós ou quando o amor chegou.

“O corpo não espera” de Jorge de Sena

um dia explodo em verbo Maio 15, 2017

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writing.jpg

Aquele poema que quis escrever não sai da minha cabeça.

Ficou preso. Incapaz de se tornar verbo. Preso na minha incapacidade de perder o medo. E de ter a coragem de vomitar a alma.

Mas… esse medo é demasiado presente. Demasiado aqui. Demasiado paralisante. Demasiado…

Um dia, quem sabe! Um dia, a voz grita. Um dia explodo em verbo. E assim me faço algo melhor.

Um dia…

(pmr 27) desse lado o mar sobe ao coração Março 12, 2016

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peso

QUASE BRANCO

 

Caminha devagar:

desse lado o mar sobe ao coração.

Agora entra na casa,

repara no silêncio, é quase branco.

Há muito tempo que ninguém

se demorou a contemplar

os breves instrumentos do verão.

Pelo pátio rasteja ainda

o sol. Canta na sombra

a cal, a voz acidulada.

 

Eugénio de Andrade in “O Peso da Sombra”, Assírio e Alvim, Lisboa, 2015, pp.59

eugenio

:

(pmr25) ao espelho Fevereiro 28, 2016

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clara

(…)

Ver-me ao espelho neste momento é ter sido agora.

 

Ter sido em simultâneo com a imagem de eu ser,

ou ser na decalagem do reflexo de ter sido;

 

ver-me e saber que não sou quem eu vejo,

que a imagem de mim é vítrea miragem,

 

que o meu corpo reflectido é estilhaço de cristal

no passado ainda próximo onde o presente é vivido.

 

O reflectido já de si está perdido de antemão –

ou estaria se o nácar não brilhasse toda a tarde

 

na luz madrepérola que cintila no espelho,

iluminando o instante em que já não sou eu.

 

Frederico Lourenço, “Clara suspeita de luz”, Caminho, 2011, pp.26

 

escuro, ou um céu tão côr de sangue Janeiro 18, 2016

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escuro

o livro de poesia que leio.o livro que ontem me acompanhou na tentativa de dormir.a poesia de Ana Luísa Amaral. e o seu fulgor em torno dos tempos que vivemos, e dos quotidianos vazios desta temporalidade cheia de luz, mas onde o escuro nos abre mais a visão do “real”.

DAS MAIS PURAS MEMÓRIAS: OU DE LUMES

Ontem à noite e antes de dormir,
a mais pura alegria

de um céu

no meio do sono a escorregar, solene
a emoção     e a mais pura alegria
de um dia entre criança e quase grande  

e era na aldeia, acordar às seis e meia da manhã, 
os olhos nas portadas de madeira, o som
que elas faziam ao abrir, as portadas
num quarto que não era o meu, o cheiro
ausente em nome

mas era um cheiro
entre o mais fresco e a luz
a começar     era o calor do verão,
a mais pura alegria

um céu tão côr de sangue
que ainda hoje, ainda ontem antes de dormir,
as lágrimas me chegam como então, e de repente,
o sol como um incêndio largo
e o cheiro     as cores

Mas era estar ali, de pé, e jovem
e a morte era tão longe,
e não havia mortos nem o seu desfile,
só os vivos, os risos, o cheiro
a luz

era a vida, e o poder de escolher, 
ou assim o parecia:

a cama e as cascatas frescas dos lençóis
macios como estrangeiros chegando a país novo,
ouas portadas    abertas de madeira
e o incêndio     do céu

Foi isto ontem à noite,
este esplendôr no escuro e antes de dormir.

 

ala

“Escuro” de Ana Luísa Amaral, Assírio e Alvim, 2014