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das espacialidades queer Outubro 8, 2010

Posted by paulo jorge vieira in apresentações, geografias das sexualidades, mestrado geografia.
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Amanhã e na continuidade da minha participação no colóquio ibérico de geografia falarei de espacialidades queer! Aqui fica o resumo:

Em 1995 Jorge Macaísta Malheiros publicou um texto intitulado “Tendências recentes na Geografia Social: o estudos dos grupos desfavorecidos” na revista Inforgeo da Associação Portuguesa de Geógrafos. Neste texto o autor problematiza um conjunto de temáticas relacionadas com o desenvolvimento da geografia social na geografia portuguesa que se plasmaram em diferentes momentos do desenvolvimento da geografia nos últimos 15 anos.

Partindo de algumas das pistas avançadas por Macaísta Malheiros pretendemos problematizar neste textos os conceitos de espacialidade e territorialidade tal como se colocam hoje na prática de investigação geográfico dando particular atenção ao modo como a teoria queer tem vindo a influenciar a (dês)construção destes conceitos geográficos. O conceito de espaço, e o seu gémeo espacialidade, é um elemento fundamental da construção teórica da ciência geográfica e tem, ao longo da história da geografia mudado e alterado bastante o modo como os geógrafos conceptualizam e usam esse conceito. Por outro lado na teoria social contemporânea, o espaço passou a ser um elemento fundamental de alguns dos debates teóricos e epistemológicos contemporâneo Fruto desta proliferação advinda de outras ciências, mormente das ciência sociais e das humanidades, também na geografia o conceito de espaço/espacialidade se alterou e sofreu fortes reconceptualizações. Entre os pensadores da teoria social que influenciaram essas mudanças estão Henri Lefebvre e Michel Foucault, entre outros pensadores do chamado pós-estruturalismo francês como Kristeva, Lyotard e Deleuze. A recepção de ambos na geografia foi diferenciada ao longo dos últimos 30 anos, tendo proporcionado releituras diferenciadas que influenciam fortemente parte da produção geográfica, em especial a produzida em espaços anglófonos. De entre os elementos que pontuam na recepção desta autores estão três sobras geográficas que deveremos destacar: “Postmoderm Geographies” de Edward Soja , The postmodern condition de David Harvey (Harvey, 1998) e Geographical Imaginations de Derek Gregory (Gregory, 1994). Estas obras são elementos de indicação e desenvolvimento de uma particular visão de espaços/espacialidades. Recentemente duas outras publicações vieram adensar o momento de reflexão sobre este conceito de geografia: por um lado o livro de Nigel Thrift “Non-Representational Theory – Space, Politics, Affect” que nos apresenta alguns elementos novos na construção de modelos teóricos e metodológicos na geografia humana; e por outro lado a publicação do seminal livro de Doreen Massey “For Space” que propõe um reflexão teórica complexas e relacional sobre o conceito de espaço.

Partimos assim da problematização do conceito de espaço/espacialidade presente na obra de Doreen Massey, em particular no seu livro “For Space”, porque propõe um novo olhar sobre o conceito de espaço/espacialidade (considera ambos como um só) de molde a responder a um conjunto de questões relacionadas com multiplicidade de conceptualizações do espaço que o chamado “spatial turn” nas ciências sociais e humanidades provocou. Assim poderemos reforçar a importância da proposta de Massey salientando a partir das suas palavras os sentidos possíveis do próprio conceito de espaço:

1 . O espaço é um produto de inter-relações. Ele é constituído através de interações, desde a imensidão do global até o intimamente pequeno (esta é uma proposição que não representa nenhuma surpresa para aqueles que têm acompanhado a literatura anglófona recente)

2. O espaço é a esfera da possibilidade da existência da multiplicidade; é a esfera na qual distintas trajectórias coexistem; é a esfera da possibilidade da existência de mais de uma voz. Sem espaço não há multiplicidade; sem multiplicidade não há espaço. Se o espaço é indiscutivelmente produto de inter-relações, então isto deve implicar na existência da pluralidade: Multiplicidade e espaço são co-constitutivos.

3. Finalmente, e precisamente porque o espaço é o produto de relações-entre, relações que são práticas materiais necessariamente embutidas que precisam ser efectivadas, ele está sempre num processo de devir, está sempre sendo feito – nunca está finalizado, nunca se encontra fechado. (Massey, 2004:8)

 

Partindo assim de um debate advindo da geografia questionaremos ainda a importância que a teoria queer tem na definição deste conceitos, em particular a partir das obras de Judith Butler e de Eve Kosofsky Sedgwick, cujas influências se tem plasmado em inúmeras obras que pontuam a cartografia da investigação geográfica um pouco por todo o espaço global.

Esta influência do pensamento queer denota-se particularmente na investigação da geografia social e cultural sobre sexualidades e género, o que nos leva numa segunda etapa analisar o pensamento teórico e a prática de investigação de um conjunto de geógrafos que em diferentes países do mundo tem colocado no centro da investigação geográfica a investigação sobre a sexualidades humana e as suas diferentes expressões espaciais e territoriais.

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o direito à (manifestação na) cidade Outubro 5, 2010

Posted by paulo jorge vieira in apresentações, geografias das sexualidades.
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 A partir de amanha estarei no Colóquio Ibérico de Geografia que espero seja um momento de aprendizagem e de partilha nessa pequena comunidade que a geografia ainda continua a ser. E começo logo com esta apresentação:

As espacialidades e territorialidades dos movimentos sociais são um elemento recente na investigação geográfica que se tem centrado no estudo dos movimentos sócio-territoriais e sócio-espaciais, ou seja, tem dedicado o seu labor científico aqueles movimentos que fazem do territórios e das políticas em torno do mesmo o seu centro de acção política e social.

As diferentes formas de intervenção no espaço público e os usos políticos e sociais por parte dos movimentos sociais são assim um dos elementos que a investigação sobre movimento sociais na geografia tende a considerar que surgem no âmbito da Geografia como fruto da influência da obra de Manuel Castells no pensamento geográfico nomeadamente devido ao livro “The City and the Grassroots”

Neste texto partindo pois de um movimento social – aparentemente menos territorializado – daremos atenção a alguns debates em torno da utilização do espaço público naquilo a que Lucien Lefebvre intitulou de “direito à cidade” e questionamos assim o modo como o movimento LGBT (lésbico, gay, bissexual e trnagénero) tem colocado os debates relacionados em torno do uso dos espaços centrais da cidade para a realização de eventos sociais e políticos.

Este trabalho pretende problematizar a importância da visibilidade de espaços centrais na cidade – no nosso caso Lisboa – para o movimento LGBT. Partimos assim dos interesses deste movimento social na localização central da maioria das suas actividades e da resistência de actores estatais, em especial a Câmara Municipal de Lisboa, a este tipo de actividades e às localizações propostas pelo movimento.

Assim parece-nos que os novos movimentos sociais e novas formas de intervenção social que se nos fazem repensar o conceitos e modos de intervenção e e de debate sobre as interpelações entre os espaços urbanos e os movimentos sociais. Boaventura de Sousa Santos, na senda de outros investigadores da temática, refere que os novos movimentos sociais surgem nos últimos anos como expressão de um renovado espectro de renovação e inovação social que resignificam o papel dos próprios movimentos sociais e das suas diferentes formas de intervenção no espaço publico. Os espaços urbanos, mormente a sua centralidade política, social e económicas, potenciam assim o desenvolvimento destes movimentos sociais, bem como, das suas diferentes formas de intervenção. Estas formas de intervenção são fortemente localizadas em espaços de significado político e simbólico para as diferentes lutas sociais e políticas sendo por isso muitas vezes centradas em espaços urbanos imbuídos dessa centralidade desejada.

Este ensaio pretende pois debater a importância do espaços urbano e da utilização do espaço público por parte do movimento LGBT português na cidade de Lisboa em especial na realização de um conjunto de actividades a quando so festejos do “orgulho LGBT”. De entre estes eventos destacam-se a Marcha do Orgulho LGBT – organizado por um colectivo de organizações sociais – eo Arraial Pride – da responsabilidade da Associação ILGA – Portugal. A localização destes dois eventos tem vindo a mudar ao longo do tempo dando indicações de diferentes espaços e de elementos diferenciados que plasmam a necessidade das lideranças deste movimento de ocupar espaços centrais na cidade.

No entanto a exigência por parte do movimento LGBT de realizar estes eventos em espaços centrais da cidade tem provocado em alguma momento conflitos e tensões com o Estado, em especial a Câmara Municipal de Lisboa pois parte da sua organização está relacionada com a edilidade.

Por outro lado a Marcha do Orgulho LGBT processo de decisão colectivo Ana sua localização centrada na ocupação de espaços centrais da cidade nomeadamente a Avenida da Liberdade em algumas das suas edições, e, em outras, nomeadamente nas suas primeiras edições e nas mais recentes centra a sua realização nos espaços do Jardim do Príncipe Real, do Chiado e da Baixa Pombalina pontuando assim a sua realização com os espaços identificados pelas organizações do movimento como elementos centrais das vivências dos quotidianos LGBT na cidade de Lisboa. Ambos os espaços são centrais na cidade de Lisboa não apenas em termos sócio-económicos, mas também em termos políticos e simbólicos adquirindo por isso um papel importante para o movimento LGBT a realização deste eventos no espaços centrais da cidade de Lisboa.

Por outro lado o Arraial Pride é o mais importante evento LGBT realizado em Portugal, envolvendo em termos médios nos últimos anos cerca de 15000 pessoas, tem tido ao longo da sua realização localizações tão dispares como a Praça do Município, o Terreiro do Paço, os Jardins da Torre de Belém ou o Parque do Calhau (Monsanto). A sua localização, dependente da Câmara Municipal de Lisboa, tem sido um dos elementos mais conflito e tensão entre a edilidade e o movimento LGBT tendo sido alvo de inúmeras criticas por parte de activistas e lideres de opinião, em especial a quando da sua deslocação para o espaço descentrado do Parque do Calhau em Monsanto.

Assim pretendemos neste texto apresentar e discutir os diferentes momento de conflito entre o Estado, nomeadamente a Câmara Municipal de Lisboa, e o movimento LGBT na escolha dos diferentes percursos e localizações destes eventos através de uma análise de media e de recolha documental, bem como, através de entrevista realizadas com dirigentes associativos LGBT reflectir sobre a importância da cidade e dos seus espaços centrais para os movimentos sociais, e neste caso, em particular para os movimentos que promovem a liberdade e diversidade sexual.