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Sobre projectos de leitura. Agosto 23, 2021

Posted by paulo jorge vieira in Uncategorized.
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Ontem eu e a Ana Dahlberg fizémos um directo no Instagram que partilho aqui convosco. Nesse mesmo directo – que não consegui ainda colocar on line nessa platforma – falamos sobre os dois projectos que resolvemos partilhar convosco: #livros_sobre_livros e #bibliotecainfinita

Quanta, quanta guerra Agosto 23, 2021

Posted by paulo jorge vieira in literatura, livros.
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Ler literatura escrita originalmente em catalão era um dos objectivos deste mês. Na lista estava uma antologia do “Caderno Cinzento” de Josep Pla, autor que já conhecia e que gostava muito.

Mas não estava preparado para esta maravilhosa experiência que está a ser “Quanta, Quanta Guerra” de Merce Rodoreda.

Uma linguagem apurada, escolhida com um cuidado extremado, que nos dá como leitores uma experiência de suavidade e simplicidade em pequenos capítulos.

Por outro lado uma quase ausência de trama, numa narrativa centrada nas desventuras de um anti-herói numa guerra civil sem sentido.

Uma reflexão sobre os disparates da guerra, sobre a inutilidade da guerra. Sobre a fome, a fome, a fome.

Um maravilhoso texto que me está a apaixonar por mais uma escritora que desconhecia.

(uma nota pessoal: continuo a achar que o design minimalista da Cotovia foi algo muito enriquecedor do mercado editorial português)

#livro #literatura #literaturacatalã #book #bookstagram #bookclub #bookstagramportugal #bookworm #booknerd

Dissidências de Género e Sexualidade na Literatura Brasileira: uma antologia (1842-1930) Junho 21, 2021

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Uma novidade da INDEX ebooks que a partir de hoje estará disponível on line (e na amazon.es para compra em papel). Ternos assim, finalmente, acesso a uma reveladora e indispensável antologia de textos em português. 

“Dissidências de Género e Sexualidade na Literatura Brasileira – uma antologia (1842-1930)

César Braga-Pinto e Helder Thiago Maia
César Braga-Pinto e Helder Thiago Maia reuniram nos dois abrangentes volumes desta antologia quase cem anos – “um longuíssimo século XIX” –  de textos ilustrativos das dissidências de género e sexualidade da literatura brasileira, cruciais para se “compreender o lugar do Brasil na história do género, das sexualidades e das homossexualidades ocidentais.”

Segundo os organizadores, “mais importante do que criar um subcânone LGBT, a contribuição desta antologia será, ao contrário, de ampliação e desestabilização do cânone literário, reconstruindo o contexto em que este se consagrou. Esta antologia “contém inúmeras descobertas, seja de autores esquecidos, como Laurindo Rabelo, Ferreira Leal, Nestor Vitor, João Luso, Vinício da Veiga, Laura Villares e outros, seja de textos menos conhecidos de autores consagrados. Assim, mesmo autores como Machado de Assis, ao serem lidos em companhia de tantos inusitados escritores, poderão ser lidos sob um prisma até agora insuspeito, menos como uma exceção de seu tempo, mas em diálogo com seus contemporâneos e antecessores.”

O primeiro volume, “Desejos”, debruça-se sobre o desejo homoerótico, incluindo o desejo dito “homossocial”, que se alarga num amplo contínuo do qual a misoginia, a homofobia e o “pânico homossexual” não estão excluídos.

O segundo volume, “Performances”, reúne as representações não-normativas de género – homens efeminados, mulheres masculinas, assim como personagens que transitam entre géneros – e que raramente permitem afirmar algo sobre a (homo)sexualidade dos personagens.”

Diarices (I) Junho 20, 2021

Posted by paulo jorge vieira in diário.
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Um livro. Um caderno. A caneta. Um desejo. A esperança.

Por vezes o caminho é apenas este. A vida simples de quem quer apenas ler o seu livro. Sentir a história.

Estes são os desejos que espelho no meu caderno torcido. Nascidos dos livros que leio, das pessoas que conheço, das ideias com que luto e das paixões que vivo.

#cadernotorcido
#quotidianotorcido
#diário
#livro#literatura

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Livros e Orgulho LGBTI (I) Junho 6, 2021

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Começo com este post um percurso que irei realizar por alguns livros sobre temática LGBTI ao longo das próximas semanas. As primeiras propostas são um conjunto de livros do século XIX e início do século XX.

Sendo uma escolha pessoal, gostaria de realçar os cinco primeiros como essenciais na compreensão contemporânea das identidades queer, em especial, das vivências que hoje chamamos “gay”. São leituras que enriquecem quem queria conhecer um pouco mais sobre a “nossa” história.

O Barão de Lavos” de Abel Botelho

“Sebastião, o barão de Lavos, seduz Eugénio- Põe-no por conta numa casa que possui, mas acaba por se apaixonar pelo jovem. Quando este se começa a sentir mais à vontade, inicia-se a explorar financeiramente o barão. Este cada vez mais envolvido, traz Eugénio para o seu circulo social. A proximidade com a baronesa, esposa de Sebastião, cria nesta e no jovem uma atracção, e os dois tornam-se amantes. Quando o barão os descobre, começa a sua queda vertiginosa, em que acabará arruinado e morto por jovens delinquentes.”

Bom Crioulo” de Adolfo Caminha

“Romance de Adolfo Caminha publicado em 1895, considerado por alguns como um dos primeiros romances sobre homossexualidade da história de toda a literatura ocidental.

A obra foi recebida com escândalo pela crítica literária da época e com silêncio por parte do público, devido a ousadia na abordagem de temas considerados tabu em finais do século 19, como o sexo entre pessoas de diferentes etnias e a homossexualidade em ambiente militar. Além disso, apresentava uma frontalidade e um erotismo pouco usuais para a sociedade da época, mas é conceituada como uma narrativa contemporânea de seu tempo.”

O Retrato de Dorian Gray” de Oscar Wilde

“Esta edição reproduz o texto original de O Retrato de Dorian Gray, enviado em Março ou Abril de 1890 por Oscar Wilde a J. M. Stoddart, director de uma revista literária de Filadélfia. Mas este publicou a novela que havia solicitado a Oscar Wilde depois de ter retirado algumas centenas de palavras com referências homossexuais e que, em sua opinião, poderiam ofender as susceptibilidades dos leitores. Recorde-se que, no final do século XIX, a homossexualidade era ostracizada e mesmo criminalizada tanto nos EUA como no Reino Unido e na generalidade dos países. Em 1891, ao preparar a edição em livro, o próprio Oscar Wilde decidiu ampliá-la com novos capítulos, mas excluiu ao mesmo tempo várias referências homoeróticas que haviam escapado à censura de Stoddart. Como é explicado na nota acerca do texto, de Paulo Faria, esta edição retoma o texto original, enviado para a Lippincott’s Monthly Magazine.”

De Profundis” de Oscar Wilde

De Profundis” é o título de uma obra de Oscar Wilde de 1897, que toma a forma de uma longa e emocional epístola épica ao seu amante Alfred Douglas, escrita na prisão de Reading, onde cumpria pena de dois anos de prisão com trabalhos forçados por atividades homossexuais pela lei de sodomia.” Esta foto corresponde ao primeiro à primeira edição em Portugal da obra integral em 1962.

Billy Budd, Marinheiro” de Herman Melville

“Herman Melville [Nova Iorque, EUA, 1819 – Nova Iorque, EUA, 1891] foi um exímio manipulador de significados ocultos; e serviu-se deles para explorar as profundas zonas da consciência humana que as convenções literárias da sua época não aprovariam ver à solta, directamente em palavras, sem a penumbra dos símbolos. Numa grande parte das suas histórias reconhecem-se sentidos múltiplos; e à de Billy Budd não bastaria este, imediato, que valoriza a frustração sexual de Claggart vivida com ódio sádico numa profunda e amarga solidão. Pode afirmar-se que nenhuma outra obra sua levou a tão variadas e audaciosas interpretações. Aquela que se detém no problema emocional e sexual de Claggart não deixa, ainda assim, de conduzir a outro problema, levantado pelo conselho de guerra que condenou Billy Budd e põe em relevo uma verdade fundamental das sociedades regidas pela Lei: que a força desta Lei se sobrepõe à consciência da Justiça.»

[Aníbal Fernandes na introdução]


«No tempo em que não havia barcos a vapor ou não eram, pelo menos, tantos como os que hoje existem, alguém que vagueasse ao longo das docas de um importante porto de mar teria por vezes a atenção alertada por um grupo de marinheiros bronzeados, homens de um navio de guerra ou mercante com a roupa domingueira de quem tinha tempo livre em terra. Em certas ocasiões caminhavam lado a lado, mas noutras eram como uma escolta a cercar uma qualquer figura superior da sua classe que andava com eles por ali fora como Aldebarã entre as luzes menores da sua constelação. Este objecto notável era o “Marinheiro Bem Parecido” de um tempo menos prosaico, tanto para a marinha de guerra como para a marinha mercante. E sem traço perceptível de vanglória, antes com a simplicidade desenvolta da sua natural realeza, é que ele parecia aceitar a espontânea homenagem dos seus camaradas.»

[Billy Budd, capítulo1]

Pages Passed from Hand to Hand: The Hidden Tradition of Homosexual Literature in English from 1748 to 1914” editado por Mark Mitchell e David Leavitt

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“Trata-se de uma antologia que perspectiva a literatura de temática homossexual em língua inglesa desde meados do século XVII até ao princípio da 1ª Guerra Mundial, cobrindo um período em que apenas discutir a homossexualidade era perigoso (um crime e um pecado) e as poucas mas corajosas páginas publicadas só podiam “passar de mão em mão” não tendo lugar nem nas prateleiras mais escondidas das livrarias.”

O sr. Ganimedes” de Alfredo Gallis

“Lígia casa-se por interesse com um rico comerciante que fez fortuna no Brasil, bastante mais velho do que ela. Respeita-o, mas não o ama. Quando fica viúva, aos 32 anos de idade, regressa a Portugal e perde-se de amores por Leonel, que conhecera em criança, quando era tímido e efeminado, mas que agora crescera para se tornar um esbelto e elegante jovem que fazia suspirar todas as donzelas de Lisboa. Mas Leonel estava era apaixonado por Liberato, um homenzarrão rude e façanhudo, de farto bigode, que o gostava de ver vestido de dama fina.”

Sáficas” de Alfredo Gallis

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“O comendador Segismundo de Campos decide contratar uma precetora britânica para cuidar da educação da sua filha Georgina, após a morte da sua esposa. Miss Katie Waterson chega no dia 4 de agosto, “um dia perfeito e terrivelmente canicular” e logo se afeiçoa por Manuela, a irmã de Georgina. Quando Arnaldo, o oficial da Marinha que estava noivo de Georgina, é enviado para fazer o seu tirocínio a segundo-tenente numa comissão de serviço em África, Manuela aproveita a oportunidade para se insinuar junto de uma Manuela emocionalmente frágil, seduzindo-a. Sultão, o bom e velho cão da família, continua a manifestar a sua antipatia por Katie, rosnando sempre à sua passagem e Georgina começa também a desconfiar que algo se passa entre as duas mulheres.”

Nova Safo” de Vinconde de Vila-Moura

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“Maria Peregrina, uma minhota, herdeira rica, parte para estudar em Londres, onde descobre o que é amar e ser amada. Às limitações que lhe são impostas pela sociedade e pela moral, contrapõe a protagonista a sua filosofia de independência e determinação que “ressalta, clara, dos meus versos – moldura própria de uma ciência nova que elegeu princípios grandes, como sejam, – a bondade, a sensualidade, o autodeterminismo (a fatalidade do temperamento) e a liberdade da alma.”

Qualquer um destes livros se consegue comprar atualmente, sendo que os clássicos da INDEZ ebooks terá que ser feito on line (http://www.indexebooks.com/)

Ler ou desler Gonçalo M. Tavares Abril 11, 2021

Posted by paulo jorge vieira in literatura, livros.
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Este mês de março li (ou reli) 4 pequenos livros de Gonçalo M Tavares integrado no  universo de leitura conjuntas dos #herdeiros promovido pelo perfil de Instagram Literacidades. A ideia é simples todos os meses um conjunto de pessoas – dezenas – irão ler o mesmo autor, vencedor do Pŕemio Saramago, comentando entre si as leituras que fazem. Março foi o mês de Gonçalo M. Tavares. 

Uma primeira nota pessoal. Não sou fã de Gonçalo M. Tavares. Ou melhor acho que nunca entrei adequadamente no universo e no imaginário de Tavares. Ainda assim li, ao longo do tempo, grande parte da sua obra, em especial os cadernos mais pequenos. Sim, exatamente os mais pequenos, os que se lêem numa tarde, ou em duas noites de leitura mais empenhada.

Então entre as minhas escolhas estavam assim a releitura de “O senhor Calvino” e ler pela primeira vez “O Senhor Eliot e as conferências” e assim terminar a leitura dos cadernos em torno desse “louco” bairro onde vivem um inusitado grupo de escritores – quem sabe os escritores preferidos da biblioteca pessoal do Gonçalo M. Tavares. 

Na verdade este bairro é uma coleção de imaginários literários diversos onde, por exemplo e e reportando-me às leituras que fiz marcam presença a paixão taxonómica de Calvino, ou a paixão especulativa da leitura poética de T. S. Eliot. Estes livros são assim um percurso de indícios que nos levam a ler/reler e debater os escritores referenciados; mas são igualmente uma biblioteca de memórias de leituras diversas em que Tavares demonstra uma imensa cultura literária. 

As outras duas obras que li enquadram-se no mesmo sentido de construção de uma memória e de um imaginário específico levou GMT a revisitar mitos ou obras clássicas e a reescrevê-las como pequenos contos no livro “Histórias Falsas”. Gonçalo M  Tavares explicita que “quando as escrevi o que me interessava era, em primeiro lugar, exercer um ligeiro desvio do olho em relação à linha central da história da filosofia; por outro tinha curiosidade em perceber o modo como a ficção – verossímil ou nem tanto – pode se encontrar suavemente num fragmento da verdade até ao ponto em que tudo se mistura e se torna uniforme” (entrevista em 2015 à “Ler”). Assim estas são “histórias falsas” reinventadas que provocam sorrisos pelos registo distópico mas igualmente anedótico de alguns dos momentos/mitos retratados. 

No mesmo sentido “Os velhos também querem viver” revisitam uma obra clássica de Eurípedes, “Alceste” criando um híbrido próximo do poema/novela nos leva a um registo irónico sobre o “sentido da vida” e o que estamos disponíveis a fazer para mantermo-nos vivos. Tal como refere a sinopse oficial do livro: “Um sniper atingiu o jovem herói em Sarajevo. Ele poderá ser salvo apenas se alguém morrer em seu lugar — todos recusam, exceto a mulher, Alceste. A partir do dilema que celebrizou a princesa que morreu pelo esposo, na tragédia grega, este livro provoca indagações inquietantes: quando uma vida poderia valer mais que outra? que pessoa ou lugar será capaz de interromper seu destino? Com uma estrutura leve, dividida em cinco partes, este livro apresenta nossos heróis como nós: crivados por dúvidas, a se encontrar e desencontrar, objetos portáteis e mortais no espaço quadriculado do mundo.”

“O Senhor Eliot e as conferências” de Gonçalo M. Tavares, Caminho, Lisboa, 2010 (li de 09/03/2021 a 12/03/2021)

“O Senhor Calvino” de Gonçalo M. Tavares, Caminho, Lisboa, 2005 (reli de 12/03/2021 a 15/03/2021)

“Histórias Falsas” de Gonçalo M. Tavares, Caminho, Lisboa, 2015 (li de 03/03/2021 a 12/03/2021)

“Os velhos também querem viver” de Gonçalo M. Tavares, Caminho, Lisboa, 2014 (li a 19/03/2021)

notas Março 24, 2021

Posted by paulo jorge vieira in diário.
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as vezes noto que estou no caminho certo. outras vezes sinto que é ali ao lado. mas a verdade é que os caminhos são feitos de dor. dessa dor que chia fino nos dias que passam. e logo logo fico com a certeza de que não estou no caminho certo.

***

Cansei. Das coisas pequenas cansei. E das coisas da vida cansei. Hoje mais uma vez cansei da vida que levo e dos sentidos da vida que levo. Deixei de perceber o mundo. Mas seja. O importante é a linha justa da vida. Tudo o resto são nadas. E eu cansei. Cansei da vida. 

“As telefones” de Djaimilia Pereira de Almeida Março 9, 2021

Posted by paulo jorge vieira in literatura, livros.
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“As telefones”  de Djaimilia Pereira de Almeida, Relógio D’Água, Lisboa, 2020 (li de 31/12/2020 a 04/01/2021)

Se temos um objecto deste século XXI, esse objecto é o telefone. Ou melhor, aquelas coisas que trazemos sempre agarradas às mãos. Este livro parte da premissa da importância destes objectos para as histórias, no feminino, da imigração. E assim Djalimilia Pereira de Almeida nos presenteia com um intrincado livro cuja leitura – pouco a pouco –  se revelou uma paixão. 

Tal como em outros momentos estes comentários são apenas desabafos de um leitor e não se enquadram em qualquer tipo de crítica literária. E sim este livro é uma daquelas leituras que nos põe a pensar. É uma leitura sobre as mulheres negras e imigrantes que se cruzam comigo todos dias. É uma leitura sobre viver numa sociedade desigual. É uma leitura sobre a saudade de casa, sobre a família que fica longe. Sobre mães e sobre filhas. 

“Apenas os barulhos do teu corpo poderiam relevar aos outros o melhor da semana: o telefonema. Haveriam  de morrer no meu ouvido. Também tu morrias no fim da chamada até ao meu coração voltar ao devido lugar, o clarão esmorecer e nos sentarmos à mesa para jantar, nem o telefone acordara nem eu engolira uma porção da tua juventude  triste e alegre. Não sei como é a tua cara. Não conheço o teu corpo. Não conheço o meu corpo.” (pp.14)

dias Março 8, 2021

Posted by paulo jorge vieira in diário.
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Existem dias que são mais dias que outros dias. As segundas feiras são dos piores dias. E hoje é isso mesmo. Mais um dia.

Assim corre o dia. Ou discorre o dia.

“Movimento” de João Luís Barreto Guimarães Fevereiro 26, 2021

Posted by paulo jorge vieira in poemas, poesia.
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“Movimento” de João Luís Barreto Guimarães, Quetzal, Lisboa, 2020 (li de 06/12/2020 a 03/01/2021)

A sinopse da Quetzal diz sobre este livro que: “é uma poesia da observação e de memória, tanto das coisas grandiosas como, sobretudo, de instantes «menores» e acontecimentos rápidos: de um domingo de Páscoa na cidade de Mostar a uma cadeira de café, dos poemas de Catulo e Horácio aos gatos dos cemitérios, João Luís Barreto Guimarães transporta-nos a um quotidiano bélico sob o signo de um tempo duro, onde coexistem o belo e o trágico, a ironia e a História, em instantes de onde emerge – ora terno, ora tenso – o movimento da vida.”.

Do autor tinha lido os livros “Mediterrâneo” (2016) e “Nómada” (2018). Foram surpresas no prazer da descoberta de uma poesia cheia de viagem e imaginários geográficos intensos. 

Este novo livro, volta a ter os espaços e os territórios como elementos centrais. E volta a ter a mobilidade como fundamento da sua reflexão poética. Mas por outro lado, uma densidade escura inunda este quadro poético plasmando a dureza, a crueldade e a fealdade dos tempos que vivemos. E assim este é um livro de uma poética triste. Ou então, é triste a minha leitura desta bela poética.  

Segunda-feira outra vez 

Não deves 

baixar a guarda. Nunca podes 

Descansar. Quando julgas que passou (que

podes limpar o sangue

dar duas voltas à chave

varrer os livros partidos) há-de sempre 

haver alguém (o

Mestre ou

um discípulo) que quer o que tu criaste

achou interessante o que é teu (a

tua alquimia

de Midas). É como se trasnformasses rosas

em vinho tinto 

e quem de nós nunca os viu: aos

verdugos

a comungar? Então não

tens outro arbítrio do qeu arrepiar as mangas

(encher o punho de tinta) e

disparar a matar. 

***

O ralo

Retiro a tampa da prata do 

ralo do lavatório e por instante parece

que o ralo aspira tudo tudo

(a barba na loiça branca

uma semana

feita em espuma) logo seguida do ar

que me rodeia

e enlaça (a

expiração exausta de

dias irreversíveis) cedo seguida dos

sons que

trabalham em redor (o

eco das vozes de ontem

o próprio

silêncio cúmplice) tudo isso pelo

ralo

num torvelinho especial que suga (de  

uma só vez ) a alegria e 

a culpa 

(uma tristeza infecciosa

este vazio amargo) isso a que 

chamam presente

(quer eu dizer:)

passado. 

***

Instruções para engolir a fúria

Na

hipótese de precisares de engolir a fúria 

utiliza um cop esquinado no qual

(acidentalmente)

possas dilacerar o lábio. Não te ocorra rejeitar 

a primeira água da torneira essa

que habitualmente vem

turva e

enferrujada. Coloca uma dose de raiva (ou

outro genérico da fúria)

na parte

posterior da garganta

aí mesmo onde pressintas maior

desconforto ao

engolir. Reconhece (ainda quente) a cólera

(o globo

da náusea) e deglute de uma só vez

sangue ferrugem e ira até 

te subir à boca alguma invectiva impoluta

(por exemplo:)

“Filhos da puta!”