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(np) fixações Setembro 4, 2020

Posted by paulo jorge vieira in diário.
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Nas piadas e nos comentários entre gente de esquerda e de direita surge volta e meia o nome de Chomsky. É uma daquelas fixações que não entendo. Como exemplo o Pedro Mexia tem um divertido texto chamado “A remela de Chomsky” (“O estado civil”, pp.131)

Afinal que tem de particularmente interessante para a esquerda? Ou dito de outro modo, porque encanita tanto os panfletários de direita?

(np) as notas Setembro 4, 2020

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as notas que escrevo nos cadernos, por vezes irão saltar para este página/blog. apenas para as guardar. apenas isso. guardar o que se vai escrevendo no caderno que se arrasta connosco.

Até quando? Um texto de Mamadou Ba Agosto 15, 2020

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Texto exclusivo de Mamadou Ba para o Expresso. “Até quando me vão acusar de ser responsável pelo racismo de que sou vítima? Até quando continuarão a dizer que sou igual àqueles que me violentam e me querem matar? Até quando continuarão a pedir-me para esperar enquanto se vai matando ou ameaçando matar uma parte de mim? Até quando? (…) A única decência que espero dos que insistem em negar ou relativizar o racismo é que tenham a inteligência e a coragem de matar o racismo antes que ele nos mate”

Até quando?

“If we must die, O let us nobly die,
So that our precious blood may not be shed
In vain; then even the monsters we defy
Shall be constrained to honor us though dead!”

Claude Mckay

Nos últimos anos houve milhares de queixas por discriminação racial junto do órgão competente, a Comissão para a Igualdade e Contra a Discriminação Racial, sem contar com as centenas de casos de racismo que motivaram queixas nos tribunais. Algumas dezenas destes casos suscitaram mesmo um enorme debate público no país. Vou lembrar apenas alguns dos que suscitaram discussão pública.

Em fevereiro de 2015, dezenas de agentes policiais torturaram seis cidadãos negros na esquadra de Alfragide e, enquanto agrediam e torturavam, os agentes proferiam insultos racistas contra as vítimas.

Em fevereiro de 2107, a comunidade cigana de Santo Aleixo da Restauração, no concelho de Moura, foi alvo de ameaças de morte pintadas em paredes da povoação, com suásticas desenhadas nas paredes, ataques incendiários que não pouparam casas, animais, viaturas automóveis e até o edifício da igreja onde as famílias realizavam o culto religioso. À moda dos pogroms nazis.

No mesmo mês de fevereiro de 2017, estalou também a polémica sobre a segregação escolar com a existência de uma escola de Famalicão em que os alunos eram todos de etnia cigana.

Em julho de 2017, o presidente da junta de Freguesia de Cabeça Gorda, no concelho de Beja, recusou o enterro e o velório na casa mortuária de um membro da comunidade cigana.

Em janeiro de 2018, um grupo de pais e mães de crianças do 4º ano da Escola Básica Major David Neto, em Portimão, denunciam maus-tratos, racismo, xenofobia e discriminação contra os seus educandos.

Em 2108, na noite de São João, Nicol Quinayas foi agredida pelo segurança de um autocarro dos transportes públicos do Porto. A vítima e quem estava com ela relataram insultos racistas. Houve também, na altura, um grande debate na sociedade portuguesa.

Em janeiro de 2019, a família Coxi, moradora no bairro do Vale de Chícharos, vulgarmente conhecido por Jamaica, foi selvaticamente agredida por agentes da PSP.

Em dezembro de 2019, o estudante cabo-verdiano Luís Giovani Rodrigues foi espancado até à morte, em Bragança. Os contornos das agressões e da sua morte foram ocultados quase durante uma semana.

Em janeiro de 2020, Cláudia Simões foi agredida pelo agente Carlos Canha numa paragem de autocarro na Amadora e, posteriormente, na viatura que a conduziu à esquadra, porque a sua filha de oito anos não trazia o passe consigo.

Em fevereiro de 2020, Moussa Marega foi alvo de continuados urros racistas dos adeptos de Guimarães. Depois de ter enfrentado sozinho os insultos, abandonou o campo num enorme gesto de coragem.

Em junho de 2020, Evaristo Martinho assassinou premeditadamente o ator negro Bruno Candé Marques, em plena luz do dia numa rua de Moscavide, após três dias de insultos racistas e ameaça explícita de morte.

A eleição de três deputadas negras, vindas do movimento social, com percurso na luta contra o racismo, ao mesmo tempo que a eleição de um deputado assumidamente racista, tornou mais visível a expressão do racismo. O debate tornou-se mais desavergonhado e insano, com a irrupção de uma torrente de ódio no espaço público, através das redes sociais, da comunicação social e da disputa política. Enquanto a escalada ia crescendo, o racismo ordinário foi-se alcandorando no deputado racista como caixa de ressonância das manifestações até agora subterrâneas.

A crescente investida terrorista da extrema-direita no espaço público, a partir de junho, com um raide de “pichagens” racistas em vários edifícios e murais na área metropolitana de Lisboa, com ameaças explícitas de violência e morte, estão em linha com o curso da escalada. Esta escalada culminou com o ataque à sede do SOS, a parada ku klux klan e as ameaças de morte a ativistas e eleitos. No que toca a um claro incitamento ao ódio e à violência, as últimas ameaças já ultrapassam todas as linhas vermelhas da disputa política. E são a consequência natural da escalada racista que André Ventura tem protagonizado, dando legitimidade à ação terrorista dos grupos neonazis. A frouxidão com que o arco partidário parlamentar tem lidado com a agenda racista de André Ventura, seja por taticismo político, seja por omissão ou por adesão, criou as condições para a afirmação destemida do racismo no espaço público. André Ventura, que instalou o discurso racista da rua na Assembleia da República, e todos aqueles que, por omissão, adesão ou silêncio optam por não o enfrentar ou por alimentá-lo, são imputáveis dos desmandos terroristas da extrema-direita. Também os mercenários financeiros da elite económica nacional que custeiam o seu projeto assassino da democracia responderão pela desgraça que significa a ascensão do fascismo e do racismo.

Aliás, torna-se impossível varrer o racismo para baixo do tapete. A sucessão de casos de violência racista tem contribuído para levantar o véu sobre o carácter estrutural do racismo na sociedade portuguesa. Já não são sustentáveis a negação e a desconversa sobre a sua existência e as suas consequências que, por vezes, se revelam trágicas, como foi recentemente no caso do assassinato do ator Bruno Candé Marques. Insistir na negação do racismo ou relativizar a sua dimensão e consequências na vida de milhares dos nossos concidadãos é não assumir a responsabilidade de defender a democracia, tornando-nos coletivamente cúmplices da ameaça que paira sobre ela. Não há vida coletiva nem projeto de sociedade democrático viável em que uma parte dos seus membros é sistematicamente violentada e atirada para fora do tecido nacional. Infelizmente, perante todas as evidências, ainda há quem continue a revelar uma extraordinária pequenez ética e uma desconcertante desonestidade política ao insistir sistemática e histericamente em equiparar o antirracismo ao racismo. Alguma destas pessoas que pedem calma, contenção, sensatez às vitimas de racismo, foi agredida verbal ou fisicamente por ser negra ou cigana no espaço público?; foi impedida de entrar num espaço público, impedida de alugar uma casa, ter acesso a um emprego ou ser paga para a mesma função com menos um terço do salário que o seu colega de trabalho?; foi perseguida e a sua vida privada devassada até exaustão?; foi alvo de chantagem ou perseguição ad hominem permanente e sistematicamente?; sofreu alguma emboscada da extrema-direita em plena via pública?; foi obrigada a mudar de casa por temer pela sua segurança e a da sua família?; teve de mudar de telefone ou conta numa rede social por já não suportar receber insultos e ameaças de todo o tipo, incluindo de morte? Alguma destas pessoas?

É por isso que, perante a ação terrorista da extrema-direita, a exigência de sensatez dos que acham que falar do racismo é fomentá-lo se torna insuportável e soa a indiferença perante o sofrimento e a violência racista. Há muito que os neonazis e os assassinos racistas, como aquele que matou Bruno Candé Marques, se alimentam desta indiferença e do relativismo dos discursos que se querem “sensatos” para não enfrentar o racismo. A calma e contenção e/ou o silêncio perante a violência racista é uma cumplicidade a que nenhum democrata se pode prestar. Enquanto a valorização moral e ética do racismo não tiver o mesmo peso que as outras violências que ofendem a dignidade humana, continuaremos a ter alheamento institucional e pouco investimento político no combate contra o racismo.

Não me peçam calma nem contenção porque estou cansado dos vossos pedidos. Até quando me vão acusar de ser responsável pelo racismo de que sou vítima? Até quando continuarão a dizer que sou igual àqueles que me violentam e me querem matar? Até quando continuarão a pedir-me para esperar enquanto se vai matando ou ameaçando matar uma parte de mim? Até quando? Ou ainda não perceberam que qualquer morte ou ameaça de morte racista é uma morte da própria ideia dos valores de humanidade que tanto gostam de apregoar? Só a condescendência com a morte da própria ideia de humanidade pode levar uma comunidade política a não se sentir ela própria ameaçada com ameaças de morte por ódio racial. Portanto, a única decência que espero dos que insistem em negar ou relativizar o racismo é que tenham a inteligência e a coragem de matar o racismo antes que ele nos mate. Para mim como para a esmagadora maioria das pessoas racializadas, o ar está cada vez mais irrespirável e já nos é insuportável ver a sociedade e as suas instituições a assobiarem para o lado perante o nosso sofrimento e dor. Temos sobrevivido porque nunca nos faltou coragem para desapertar o sufoco do racismo que asfixia as nossas vidas. Assim continuaremos, custe o que custar. Falta saber até quando continuará a faltar coragem à sociedade e às suas instituições para enfrentar o monstro. Ou matamos o monstro ou ele matar-nos-á a todos.

Para tanto, se quisermos um futuro coletivo comum, a escolha é só uma: defender a democracia enquanto é tempo, enfrentando com determinação a barbárie da extrema-direita.

14-08-20
MB

(np) O taxista. Junho 24, 2020

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A ideia era simples. Uma viagem do Martim Moniz para uma rua nas Avenidas Novas. 

Como estava com pressa resolvi apanhar o táxi. Subir o alinhamento Rua da Palma/Avenida Almirante Reis até Alameda Afonso Henriques levou o taxista a reclamar e a exigir vários abaixo-assinados contra a  ciclovia recém criada nesta via. 

Mas lá se foi fazendo a viagem. A menos de 100 metros do destino olhei para o taxímetro.  6.35 euros. Saquei de 10 euros. 

Antes que conseguisse dizer “Pague-se de 7 euros”, o taxista tapa o mecanismo e diz-me: “São 7 euros e 5”. Claro que quando olhei o referido mecanismo já tinha sido apagado.

Lá passei os 10 euros e não é que… o taxista me dá como troco 3 moedas de 50 cêntimos, ou seja 1 euro e meio. 

Ou seja deveria me ter dado 2.95 euros do valor que me disse ser a viagem. Valor que já era uma falcatrua pois a viagem não chegou aos 6.5 euros. E teve a desfaçatez de me dar 1.5 euros. 

O taxista em questão é uma pessoa inqualificável e eu já lhe roguei todas as pragas possíveis. 

Mas a sério que ganhou ele? 2 euros. Que seja muito feliz com tal valor. 

Já agora como é que se instala mesmo o Uber?

Mãos Junho 17, 2020

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Mãos


Mãos que moldaram em terracota a beleza e a serenidade do Ifé.
Mãos que na cera polida encontram o orgulho perdido do Benin.
Mãos que do negro madeiro extraíram a chama das estatuetas olhos de vidro
e pintaram na porta das palhotas ritmos sinuosos de vida plena:
plena de sol incendiando em espasmos as estepes do sem-fim
e nas savanas acaricia e dá flores às gramíneas da fome.
Mãos cheias e dadas às labaredas da posse total da Terra,
mãos que a queimam e a rasgam na sede de chuva
para que dela nasça o inhame alargando os quadris das mulheres
adoçando os queixumes dos ventres dilatados das crianças
o inhame e a matabala, a matabala e o inhame.

Mãos negras e musicais (carinhos de mulher parida) tirando da pauta da Terra
o oiro da bananeira e o vermelho sensual do andim.
Mãos estrelas olhos nocturnos e caminhantes no quente deserto.
Mãos correndo com o harmatan nuvens de gafanhotos livres
criando nos rios da Guiné veredas verdes de ansiedades.
Mãos que à beira-do-mar-deserto abriram Kano à atracção dos camelos da aventura
e também Tombuctu e Sokoto, Sokoto e Zária
e outras cidades ainda pasmadas de solenes emires de mil e mais noites!

Mãos, mãos negras que em vós estou pensando.

Mãos Zimbabwe ao largo do Indico das pandas velas
Mãos Mali do sono dos historiadores da civilização
Mãos Songhai episódio bolorento dos Tombos
Mãos Ghana de escravos e oiro só agora falados
Mãos Congo tingindo de sangue as mãos limpas das virgens
Mãos Abissínias levantadas a Deus nos altos planaltos:
Mãos de África, minha bela adormecida, agora acordada pelo relógio das balas!

Mãos, mãos negras que em vós estou sentindo!

Mãos pretas e sábias que nem inventaram a escrita nem a rosa-dos-ventos
mas que da terra, da árvore, da água e da música das nuvens
beberam as palavras dos corás, dos quissanges e das timbilas que o mesmo é
dizer palavras telegrafadas e recebidas de coração em coração.
Mãos que da terra, da árvore, da água e do coração tantã
criastes religião e arte, religião e amor.

Mãos, mãos pretas que em vós estou chorando!

Francisco José Tenreiro

“John was looking for me from his window.” Junho 17, 2020

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“June 17, 1940

John was looking for me from his window. He was tense, highly strung, overwhelmed. We talked a little, and then he came over and kissed me. He took all my clothes off. He was amazed by my body, the body of a girl, yet more than a girl…ageless. I felt his fear, but to tell the truth, I was afraid too, as if this were my first love affair. I was intimidated because I knew what his imagination had made of me—a mythical figure. I knew he was overwhelmed and that I could not live up to my reputation of an experienced European woman of the world. It felt unreal, and I told him so. I was quiet, timid, passive, feminine—my own humanness put him at ease. He became impulsive, dynamic, violent, and our caresses were entangled in strangeness.
He is truly Henry’s son, a young savage, with the same blue eyes, same white skin, a laughing face, but with great strength. He is only twenty-six. I pushed aside the literary aura, the past, so that we could breathe. I said this was something happening in space. I wanted life…and there is life in John, an abundance of it. At first I dreaded my age—thirty-seven—but when we talked I realized I have no age in his eyes. John said he could tell everybody’s age, but not mine. He knows, for instance, what his wife will look like ten, twenty years from now, but he cannot tell about me. He feels I will live forever and that I have had many lives, far into the past. He said many poetic things—he is full of faith and ardor. Henry and I have expanded the world for him. I know this is to be a creation, and for that I am sad. I wanted something else, but I am so grateful for John, for his worship and his youth—he is a young giant, a force to come, full of potentialities. He is explosive, alert, violent, active, a strong personality. I enjoy his electric youth. It is better than living in the past, clinging to Gonzalo’s heaviness and inertia, to the tragedy of France’s death. A few days ago I was dying with France, dying with Gonzalo. Today I went to John’s room and forgot all about death. I felt my own youth; there was music
again. At least my body is not dead. I told Eduardo I was going to pose for John, and Eduardo said: “It’s dangerous. He has his Moon over your Sun.” John says poetic things about my voice, is awake to my hair, my clothes, my skin. Is the current of life set in motion again, by John? He is tender, worshipful, too excited to sleep. Because he is romantic and idealistic, there is the danger of him mistaking this for love.”

Anaïs Nin, “Mirages: The Unexpurgated Diary of Anaïs Nin, 1939 – 1947”

(RIP) Maria Velho da Costa Maio 24, 2020

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Como memória e homenagem a Maria Velho da Costa, falecida ontem, publico um seu afamado texto “Mulheres e a Revolução”, um texto em prosa frequentemente dito em voz alta como o fez brilhantemente Mário Viegas.

1. Reconstituição da força de trabalho

Elas são quatro milhões, o dia nasce, elas acendem o lume. Elas cortam o pão e aquecem o café. Elas picam cebolas e descascam batatas. Elas migam sêmeas e restos de comida azeda. Elas chamam ainda escuro os homens e os animais e as crianças. Elas enchem lancheiras e tarros e pastas de escola com latas e buchas e fruta embrulhada num pano limpo. Elas lavam os lençóis e as camisas que hão-de suar-se outra vez. Elas esfregam o chão de joelhos com escova de piaçaba e sabão amarelo e correm com os insectos a que não venham adoecer os seus enquanto dormem. Elas brigam nos mercados e praças por mais barato. Elas contam centavos. Elas costuram e enfiam malhas em agulhas de pau com as lãs que hão-de manter no corpo o calor da comida que elas fazem. Elas vêm com um cântaro de água à cinta e um molho de gravetos na cabeça. Elas limpam as pias e as tinas e as coelheiras e os currais. Elas acendem o lume. Elas migam hortaliça. Elas desencardem o fundo dos tachos. Elas passajam meias e calças e camisas e outra vez, meias. Elas areiam o fogão com palha de aço. Elas calcorreiam a cidade a pé e à chuva porque naquele bairro os fatos-macacos são caros. Elas correm esbaforidas para não perder o comboio, o barco. Elas pousam o cesto e abrem a porta com a mão vermelha. Elas põem a tranca no palheiro. Elas enterram o dedo mínimo na galinha a ver se tem ovo. Elas acendem o lume. Elas mexem o arroz com um garfo de zinco. Elas lambem a ponta do fio de linha para virar a camisa. Elas enchem os pratos. Elas pousam o alguidar na borda da pia para aguentar. Elas arredam a coberta da cama. Elas abrem-se para um homem cansado. Elas também dormem.


2. Reprodução da força de trabalho


Elas vão à parteira que lhes diz que já vai adiantado. Elas alargam o cós das saias. Elas choram a vomitar na pia. Elas limpam a pia. Elas talham cueiros. Elas passam fitilhos de seda no melhor babeiro. Elas andam descalças que os pés já não cabem no calçado. Elas urram. Elas untam o mamilo gretado com um dedal de manteiga. Elas cantam baixinho a meio da noite a niná-los para que o homem não acorde. Elas raspam as fezes das fraldas com uma colher romba. Elas lavam. Elas carregam ao colo. Elas tiram o peito para fora debaixo de um sobreiro. Elas apuram o ouvido no escuro para ver se a gaiata na cama ao lado com os irmãos não dá por aquilo. Elas assoam. Elas lavam joelhos com água morna. Elas cortam calções e bibes de riscado. Elas mordem os beiços e torcem as mãos, a jorna perdida se o febrão não desce. Elas lavam os lençóis com urina. Elas abrem a risca do cabelo, elas entrançam. Elas compram a lousa e o lápis e a pasta de cartão. Elas limpam rabos. Elas guardam uma madeixita entre dois trapos de gaze. Elas talham um vestido de fioco para uma boneca de papelão escondida debaixo da cama. Elas lavam as cuecas borradas do primeiro sémen, do primeiro salário, da recruta. Elas pedem fiado popeline da melhor para a camisa que hão-de levar para a França, para Lisboa. Elas vão à estação chorosas. Elas vêm trazer um borrego à primeira barraca e ao primeiro neto. Elas poupam no eléctrico para um carrinho de corda.


3. Produção

Elas sobem para cima de um caixote, que ainda são pequenas para chegar à bancada de descamar o peixe. Elas mondam, os dedos tolhidos de frieira e urtiga. Elas fazem descer a lâmina de cortar o coiro. Elas sopram nos dedos a aquecê-los, esfregam os olhos, voltam a pôr as mãos por detrás da lente a acertar os fios da matriz do transistor. Elas espremem as tetas da vaca para o balde apertado entre as pernas. Elas fecham num dia as pregas de papel de mil pacotes de bolacha. Elas acertam em duzentos casacos a postura da manga onde cravar o botão. Elas limpam o suor da testa com a manga e a foice rebrilha ao sol por cima da cabeça e da seara. Elas ouvem a matraca de dez teares enquanto a peça cresce diante, o fio amandado de braço a braço aberto. Elas cortam os dedos nas primeiras vinte cinco latas até calejar bem. Elas fazem a agulha passar para cá e lá em cruz na tela do tapete. Elas vigiam a última fieira de garrafas, caladas, à espera da sirene. Elas carregam o cesto de azeitona à cabeça já sem cantar, até que o sol se ponha.


4. Serviços

Elas carregam no botão da caixa e fazem quinhentos trocos miúdos. Elas metem a cavilha, dizem outro número e passam a vigésima chamada. Elas mexem panelões que lhes chegam à cinta. Elas descem doze caixotes de lixo já noite fechada. Elas fazem todas as camas e despejos de uma família alheia. Elas picam bilhetes metidas numa caixa de vidro. Elas batem à máquina palavras que não entendem. Elas arquivam por ordem alfabética duas mil.

Maria Velho da Costa, Cravo, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1994.

(np) um tempo rápido cheio de nada Maio 6, 2020

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Solidão. Solidão dos tempos e dos desejos que queremos algo mais. Um tempo que passa rápido, mas que ao mesmo tempo parece que não muda. No vazio do nada. No tempo rápido cheio de nada. 

Hoje é apenas mais um dia que salta e corre devagar. E eu sinto-me bem triste e incapaz… Por isto mesmo sinto a necessidade de mudar as minhas práticas pessoais potenciando uma produtividade que tenho desvalorizado. E isso será a mudança desejada, a mudança que as palavras e a solidão sem fim provocaram. 

“Two gentlemen sharing”: Rental discrimination of same-sex couples in Portugal Fevereiro 24, 2020

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“Two gentlemen sharing”: Rental discrimination of same-sex couples in Portugal

(texto aqui)

Filipe Rodrigues Gouveia a,

Therese Nilsson a,b,

Niclas Berggren b,c

ABSTRACT: We measure and analyze discriminatory behavior against same-sex couples trying to rent an apartment in Portugal. This is the first correspondence field experiment investigating discrimination against this minority group in Portugal, adding to a literature using this method to as certain discriminatory behavior in the housing market. In our experiment, four type of applicants varying in gender (male and female) and modality (same and opposite sex) reply to Internet ads to express interest in renting an apartment in the metropolitan areas of Porto and Lisbon. All applicant couples are presented as married, stable and professional. The main finding is that male same-sex couples face significant discrimination: The probability of getting a positive reply is 7–8 percentage points, or 26 percent, lower for them compared to opposite-sex couples. The effect is even more negative in parishes where the population is older, and discrimination increases in magnitude over the rental value and the square meter price of apartments. However, and perhaps surprisingly, the risk of discrimination decreases with religiosity (up to a point) and the distance to the metropolitan center (up to a point). The results for female same-sex couples also show a sizeable negative effect, with a 3 percentage-point, or 10 percent, lower probability of a positive response compared to opposite-sex couples, even though this difference is less precisely estimated. The present study extends the literature to a southern European setting and validates previous research documenting worse treatment of same-sex couplesin the housing market. Interestingly, in spite of less positive attitudes to same-sex couples among the Portuguese public, the level of discrimination is comparable to that found in Sweden and lower than on the Irish short-term rental market. This arguably illustrates that attitudes and discriminatory behavior need not be closely aligned.

Keywords:Same-sex couples,Discrimination, Portugal, Field experiment, LGBT, Housing

a Department of Economics, Lund University, P.O. Box 7082, 220 07 Lund, Sweden

b Research Institute of Industrial Economics (IFN), Box 55665, 102 15 Stockholm, Sweden

c Department of Economics (KEKE NF), University of Economics in Prague, Winston Churchill Square 4, 130 67 Prague 3, Czech Republic

Men in Place: Trans Masculinity, Race, and Sexuality in America Fevereiro 14, 2020

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Men in Place: Trans Masculinity, Race, and Sexuality in America

cover

Author(s): Miriam J. Abelson

Publisher: University of Minnesota Press, Year: 2019


Daring new theories of masculinity, built from a large and geographically diverse interview study of transgender men

American masculinity is being critiqued, questioned, and reinterpreted for a new era. In Men in Place Miriam J. Abelson makes an original contribution to this conversation through in-depth interviews with trans men in the U.S. West, Southeast, and Midwest, showing how the places and spaces men inhabit are fundamental to their experiences of race, sexuality, and gender.

Men in Place explores the shifting meanings of being a man across cities and in rural areas. Here Abelson develops the insight that individual men do not have one way to be masculine—rather, their ways of being men shift between different spaces and places. She reveals a widespread version of masculinity that might be summed up as “strong when I need to be, soft when I need to be,” using the experiences of trans men to highlight the fundamental construction of manhood for all men.

With an eye to how societal institutions promote homophobia, transphobia, and racism, Men in Place argues that race and sexuality fundamentally shape safety for men, particularly in rural spaces, and helps us to better understand the ways that gender is created and enforced.

Introduction
“I DON’T HAVE ONE WAY TO BE”


What does it mean to be a man in America? Leo pondered this ques-
tion as he sat at the kitchen table, recently cleared of dinner dishes,
in his San Francisco apartment. The evening summer fog had crept
in over the hills and settled above the streets, putting a chill in the
air. At the start of the second decade of the twenty-­first century, Leo’s
thoughts turned first to fear, even in the supposed progressive strong-
hold of the Bay Area. The recent killing of Oscar Grant, a young black
man living in the Bay Area, by a transit police officer in the early hours
of New Year’s Day 2009 weighed heavily on Leo’s mind:
The consequences of being a black man was made even more
relevant in my life when a young man named Oscar Grant was
pulled off a train and shot in the back, and you know, I just
easily see myself in that position being on a train coming from
a party. . . . There was just this feeling of being on this crowded
train and being pulled off because there was some kind of chaos
and just resembling someone and to have that happen. It’s just
so tragic.
As a black man in his midthirties living in the same area, Leo could
easily see Grant’s fate as his own—­pulled off a crowded train by po-
lice for fitting the description of a suspect and losing his life amid the
chaos of New Year’s revelry. The fear of being perceived by others as
dangerous when in public spaces, by virtue of being a black man, was
at the forefront of his mind. A big part of being a man meant watch-
ing himself when out in the world, never sure when he might become
a target.