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Ler ou desler Gonçalo M. Tavares Abril 11, 2021

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Este mês de março li (ou reli) 4 pequenos livros de Gonçalo M Tavares integrado no  universo de leitura conjuntas dos #herdeiros promovido pelo perfil de Instagram Literacidades. A ideia é simples todos os meses um conjunto de pessoas – dezenas – irão ler o mesmo autor, vencedor do Pŕemio Saramago, comentando entre si as leituras que fazem. Março foi o mês de Gonçalo M. Tavares. 

Uma primeira nota pessoal. Não sou fã de Gonçalo M. Tavares. Ou melhor acho que nunca entrei adequadamente no universo e no imaginário de Tavares. Ainda assim li, ao longo do tempo, grande parte da sua obra, em especial os cadernos mais pequenos. Sim, exatamente os mais pequenos, os que se lêem numa tarde, ou em duas noites de leitura mais empenhada.

Então entre as minhas escolhas estavam assim a releitura de “O senhor Calvino” e ler pela primeira vez “O Senhor Eliot e as conferências” e assim terminar a leitura dos cadernos em torno desse “louco” bairro onde vivem um inusitado grupo de escritores – quem sabe os escritores preferidos da biblioteca pessoal do Gonçalo M. Tavares. 

Na verdade este bairro é uma coleção de imaginários literários diversos onde, por exemplo e e reportando-me às leituras que fiz marcam presença a paixão taxonómica de Calvino, ou a paixão especulativa da leitura poética de T. S. Eliot. Estes livros são assim um percurso de indícios que nos levam a ler/reler e debater os escritores referenciados; mas são igualmente uma biblioteca de memórias de leituras diversas em que Tavares demonstra uma imensa cultura literária. 

As outras duas obras que li enquadram-se no mesmo sentido de construção de uma memória e de um imaginário específico levou GMT a revisitar mitos ou obras clássicas e a reescrevê-las como pequenos contos no livro “Histórias Falsas”. Gonçalo M  Tavares explicita que “quando as escrevi o que me interessava era, em primeiro lugar, exercer um ligeiro desvio do olho em relação à linha central da história da filosofia; por outro tinha curiosidade em perceber o modo como a ficção – verossímil ou nem tanto – pode se encontrar suavemente num fragmento da verdade até ao ponto em que tudo se mistura e se torna uniforme” (entrevista em 2015 à “Ler”). Assim estas são “histórias falsas” reinventadas que provocam sorrisos pelos registo distópico mas igualmente anedótico de alguns dos momentos/mitos retratados. 

No mesmo sentido “Os velhos também querem viver” revisitam uma obra clássica de Eurípedes, “Alceste” criando um híbrido próximo do poema/novela nos leva a um registo irónico sobre o “sentido da vida” e o que estamos disponíveis a fazer para mantermo-nos vivos. Tal como refere a sinopse oficial do livro: “Um sniper atingiu o jovem herói em Sarajevo. Ele poderá ser salvo apenas se alguém morrer em seu lugar — todos recusam, exceto a mulher, Alceste. A partir do dilema que celebrizou a princesa que morreu pelo esposo, na tragédia grega, este livro provoca indagações inquietantes: quando uma vida poderia valer mais que outra? que pessoa ou lugar será capaz de interromper seu destino? Com uma estrutura leve, dividida em cinco partes, este livro apresenta nossos heróis como nós: crivados por dúvidas, a se encontrar e desencontrar, objetos portáteis e mortais no espaço quadriculado do mundo.”

“O Senhor Eliot e as conferências” de Gonçalo M. Tavares, Caminho, Lisboa, 2010 (li de 09/03/2021 a 12/03/2021)

“O Senhor Calvino” de Gonçalo M. Tavares, Caminho, Lisboa, 2005 (reli de 12/03/2021 a 15/03/2021)

“Histórias Falsas” de Gonçalo M. Tavares, Caminho, Lisboa, 2015 (li de 03/03/2021 a 12/03/2021)

“Os velhos também querem viver” de Gonçalo M. Tavares, Caminho, Lisboa, 2014 (li a 19/03/2021)

notas Março 24, 2021

Posted by paulo jorge vieira in diário.
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as vezes noto que estou no caminho certo. outras vezes sinto que é ali ao lado. mas a verdade é que os caminhos são feitos de dor. dessa dor que chia fino nos dias que passam. e logo logo fico com a certeza de que não estou no caminho certo.

***

Cansei. Das coisas pequenas cansei. E das coisas da vida cansei. Hoje mais uma vez cansei da vida que levo e dos sentidos da vida que levo. Deixei de perceber o mundo. Mas seja. O importante é a linha justa da vida. Tudo o resto são nadas. E eu cansei. Cansei da vida. 

“As telefones” de Djaimilia Pereira de Almeida Março 9, 2021

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“As telefones”  de Djaimilia Pereira de Almeida, Relógio D’Água, Lisboa, 2020 (li de 31/12/2020 a 04/01/2021)

Se temos um objecto deste século XXI, esse objecto é o telefone. Ou melhor, aquelas coisas que trazemos sempre agarradas às mãos. Este livro parte da premissa da importância destes objectos para as histórias, no feminino, da imigração. E assim Djalimilia Pereira de Almeida nos presenteia com um intrincado livro cuja leitura – pouco a pouco –  se revelou uma paixão. 

Tal como em outros momentos estes comentários são apenas desabafos de um leitor e não se enquadram em qualquer tipo de crítica literária. E sim este livro é uma daquelas leituras que nos põe a pensar. É uma leitura sobre as mulheres negras e imigrantes que se cruzam comigo todos dias. É uma leitura sobre viver numa sociedade desigual. É uma leitura sobre a saudade de casa, sobre a família que fica longe. Sobre mães e sobre filhas. 

“Apenas os barulhos do teu corpo poderiam relevar aos outros o melhor da semana: o telefonema. Haveriam  de morrer no meu ouvido. Também tu morrias no fim da chamada até ao meu coração voltar ao devido lugar, o clarão esmorecer e nos sentarmos à mesa para jantar, nem o telefone acordara nem eu engolira uma porção da tua juventude  triste e alegre. Não sei como é a tua cara. Não conheço o teu corpo. Não conheço o meu corpo.” (pp.14)

dias Março 8, 2021

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Existem dias que são mais dias que outros dias. As segundas feiras são dos piores dias. E hoje é isso mesmo. Mais um dia.

Assim corre o dia. Ou discorre o dia.

“Movimento” de João Luís Barreto Guimarães Fevereiro 26, 2021

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“Movimento” de João Luís Barreto Guimarães, Quetzal, Lisboa, 2020 (li de 06/12/2020 a 03/01/2021)

A sinopse da Quetzal diz sobre este livro que: “é uma poesia da observação e de memória, tanto das coisas grandiosas como, sobretudo, de instantes «menores» e acontecimentos rápidos: de um domingo de Páscoa na cidade de Mostar a uma cadeira de café, dos poemas de Catulo e Horácio aos gatos dos cemitérios, João Luís Barreto Guimarães transporta-nos a um quotidiano bélico sob o signo de um tempo duro, onde coexistem o belo e o trágico, a ironia e a História, em instantes de onde emerge – ora terno, ora tenso – o movimento da vida.”.

Do autor tinha lido os livros “Mediterrâneo” (2016) e “Nómada” (2018). Foram surpresas no prazer da descoberta de uma poesia cheia de viagem e imaginários geográficos intensos. 

Este novo livro, volta a ter os espaços e os territórios como elementos centrais. E volta a ter a mobilidade como fundamento da sua reflexão poética. Mas por outro lado, uma densidade escura inunda este quadro poético plasmando a dureza, a crueldade e a fealdade dos tempos que vivemos. E assim este é um livro de uma poética triste. Ou então, é triste a minha leitura desta bela poética.  

Segunda-feira outra vez 

Não deves 

baixar a guarda. Nunca podes 

Descansar. Quando julgas que passou (que

podes limpar o sangue

dar duas voltas à chave

varrer os livros partidos) há-de sempre 

haver alguém (o

Mestre ou

um discípulo) que quer o que tu criaste

achou interessante o que é teu (a

tua alquimia

de Midas). É como se trasnformasses rosas

em vinho tinto 

e quem de nós nunca os viu: aos

verdugos

a comungar? Então não

tens outro arbítrio do qeu arrepiar as mangas

(encher o punho de tinta) e

disparar a matar. 

***

O ralo

Retiro a tampa da prata do 

ralo do lavatório e por instante parece

que o ralo aspira tudo tudo

(a barba na loiça branca

uma semana

feita em espuma) logo seguida do ar

que me rodeia

e enlaça (a

expiração exausta de

dias irreversíveis) cedo seguida dos

sons que

trabalham em redor (o

eco das vozes de ontem

o próprio

silêncio cúmplice) tudo isso pelo

ralo

num torvelinho especial que suga (de  

uma só vez ) a alegria e 

a culpa 

(uma tristeza infecciosa

este vazio amargo) isso a que 

chamam presente

(quer eu dizer:)

passado. 

***

Instruções para engolir a fúria

Na

hipótese de precisares de engolir a fúria 

utiliza um cop esquinado no qual

(acidentalmente)

possas dilacerar o lábio. Não te ocorra rejeitar 

a primeira água da torneira essa

que habitualmente vem

turva e

enferrujada. Coloca uma dose de raiva (ou

outro genérico da fúria)

na parte

posterior da garganta

aí mesmo onde pressintas maior

desconforto ao

engolir. Reconhece (ainda quente) a cólera

(o globo

da náusea) e deglute de uma só vez

sangue ferrugem e ira até 

te subir à boca alguma invectiva impoluta

(por exemplo:)

“Filhos da puta!”

“O Livro de Joaquim” de Daniel Faria Fevereiro 24, 2021

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“O Livro de Joaquim” de Daniel Faria, Assírio & Alvim, Lisboa, 2019 (li de 28/12/2020 a 02/01/2021)

Uma primeira nota sobre o quanto é belo este livro enquanto objecto. E pequeno. Estas são as medidas do mesmo: 110 x 167 x 13 mm. Mesmo pequeno. Cabe numa mão. 

Além disso, esta edição da Assírio & Alvim começa com a edição fac-simile do manuscrito de Daniel Faria.  Como refere Francisco Saraiva Fino, na nota de edição: “Com a manutenção do fac-símile do manuscrito, deslocado em relação à edição anterior para uma posição de maior visibilidade no conjunto, seguido da sua leitura crítica, repetimos a ideia de inclusão do leitor nestes lugares que o poeta desejou também para os outros.” 

Uma segunda nota sobre o modo de classificação do livro. Poesia? Diário? Ou uma longa carta feita de pequenos aforismos? Pessoalmente vou colocar este volume nas minhas estantes de diários. Parece-me uma boa hipótese: um diário de notas, em torno de uma amizade, escritas num caderno que será uma oferta a Joaquim. 

São apenas 20 páginas de uma beleza estonteante que reforçam mais uma vez a poderosa voz poética de Daniel Faria. Um espaço de reflexividade e de potência transformadora da beleza da amizade. 

Pedaços:

“Até hoje vivi mais das possibilidades do que das certezas, das esperanças mais do que das decisões. E agora que decidir é irremediável e o tempo para mim se fez lugar de angústia mais que redenção, invejo Moisés que tendo vivido o tempo da promessa, morreu antes de chegar à terra prometida” (pp.65)

***

“Sei bem, embora, que tudo em mim é demasiado vulnerável para que, assim vivida, a minha vida seja mais do que derrota sem qualquer mérito, humilhação vil, indigna de indulgência, indiferença ou indignação.

Sei ainda que o ódio é o que mais falso existe do verdadeiro.” (pp.66)

***

“Na amizade muitas vezes, a distância é o lugar mais próximo e de maior proximidade, isto é, onde a presença do outro de tão inteira já não pode ser medida. Sendo um lugar cheio de saudade, esse é também um lugar feliz, porque aí sem cessar se regressa e avista.

É como o movimento de quem caminha num espaço alto e estreito : é preciso separar os braços e desunir as mãos, para que possa alcançar-se o equilíbrio.” (pp.67)

***

“Porque aprendi a conhecer-te, vejo que agora me desprezas. Não tivesse eu aprendido, e nem hoje isso me importava.” (pp. 72)

lembrar David Mourão Ferreira Fevereiro 24, 2021

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David Mourão-Ferreira (Lisboa, 24 de fevereiro de 1927 — Lisboa, 16 de junho de 1996) foi um escritor e poeta português. Aqui fica um poema seu para o lembrar na sua data de nascimento. E já agora, não deixem de ler o romance “Um amor Feliz”.

Nem o Tempo tem tempo
para sondar as trevas

deste rio correndo
entre a pele e a pele

Nem o Tempo tem tempo
nem as trevas dão tréguas

Não descubro o segredo
que o teu corpo segrega



David Mourão Ferreira
Obra Poética

Dorme, meu amor, que o mundo já viu morrer mais este dia e eu estou aqui, de guarda aos pesadelos. Fevereiro 16, 2021

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Dorme, meu amor, que o mundo já viu morrer mais

este dia e eu estou aqui, de guarda aos pesadelos.

Fecha os olhos agora e sossega o pior já passou

há muito tempo; e o vento amaciou; e a minha mão

desvia os passos do medo. Dorme, meu amor –

a morte está deitada sob o lençol da terra onde nasceste

e pode levantar-se como um pássaro assim que

adormeceres. Mas nada temas: as suas asas de sombra

não hão-de derrubar-me eu já morri muitas vezes

e é ainda da vida que tenho mais medo. Fecha os olhos

agora e sossega a porta está trancada; e os fantasmas

da casa que o jardim devorou andam perdidos

nas brumas que lancei ao caminho. Por isso, dorme,

meu amor, larga a tristeza à porta do meu corpo e

nada temas: eu já ouvi o silêncio, já vi a escuridão, já

olhei a morte debruçada nos espelhos e estou aqui,

de guarda aos pesadelos a noite é um poema

que conheço de cor e vou cantar-to até adormeceres.

Maria Do Rosário Pedreira

cidade feminista, um livro Janeiro 26, 2021

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Ciudad feminista

La lucha por el espacio en un mundo diseñado por hombres

Autor/a Leslie Kern

Ciudad feminista es un experimento continuo para vivir de manera diferente, vivir mejor y vivir de manera más justa en un mundo urbano.

Vivimos en la ciudad de los hombres. Nuestros espacios públicos no están diseñados para cuerpos femeninos. Hay poca consideración por las mujeres como madres, trabajadoras o cuidadoras. Las calles urbanas suelen ser un lugar de amenazas más que de comunidad. La gentrificación ha dificultado aún más la vida cotidiana de las mujeres. ¿Cómo sería una metrópoli para mujeres trabajadoras? Una ciudad de amistades más allá de Sex and the City. Un sistema de tránsito que acomode a las madres con cochecitos en el recorrido hacia la escuela. Un espacio público con suficientes baños. Un lugar donde las mujeres puedan caminar sin acoso.

En Ciudad feminista, a través de la historia, la experiencia personal y la cultura popular, Leslie Kern expone lo que está oculto a simple vista: las desigualdades sociales construidas en nuestras ciudades, hogares y vecindarios. Kern ofrece una visión alternativa de la ciudad feminista. Asumiendo el miedo, la maternidad, la amistad, el activismo y las alegrías y peligros de estar sola, Kern traza un mapa de la ciudad desde nuevos puntos de vista, presenta un enfoque feminista interseccional de las historias urbanas y propone que la ciudad es quizás también nuestra mejor esperanza para dar forma a un nuevo futuro urbano. Es hora de desmantelar lo que damos por sentado sobre las ciudades y de preguntarnos cómo podemos construir juntas ciudades más justas, sostenibles y favorables a las mujeres.

(pmr) Amo-te nesta ideia nocturna da luz nas mãos Janeiro 3, 2021

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Amo-te nesta ideia nocturna da luz nas mãos


Amo-te nesta ideia nocturna da luz nas mãos
E quero cair em desuso
Fundir-me completamente.
Esperar o clarão da tua vinda, a estrela, o teu anjo
Os focos celestes que a candeia humana não iguala
Que os olhos da pessoa amada não fazem esquecer.
Amo tão grandemente a ideia do teu rosto que penso ver-te
Voltado para mim
Inclinado como a criança que quer voltar ao chão.

Daniel Faria

“Poesia”, Assírio & Alvim, Porto, 2012, p. 245