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uma música para os que partiram Junho 14, 2016

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You’ll Never Walk Alone” (1945, Rodgers and Hammerstein) na voz de Judy Garland

 

When you walk through a storm
Hold your head up high
And don’t be afraid of the dark
At the end of the storm
There’s a golden sky
And the sweet silver song of a lark

Walk on through the wind
Walk on through the rain
Though your dreams be tossed and blown

Walk on walk on with hope in your heart
And you’ll never walk alone
You’ll never walk alone

When you walk through a storm
Hold your head up high
And don’t be afraid of the dark
At the end of the storm
Is a golden sky
And the sweet silver song of the lark

Walk on through the wind
Walk on through the rain
Though your dreams be tossed and blown

Walk on walk on with hope in your heart
And you’ll never walk alone
You’ll never walk

You’ll never walk
You’ll never walk alone

 

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“Eu sou homossexual e sou gay e sou bicha e maricas e paneleiro e durante muito tempo não quis ser nada disto” Junho 14, 2016

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(também o actor João Villas-Boas escreveu este outro texto que nos alerta para a contínua violência de que a população LGBT é alvo. mais uma partilha que vale a pena ler)

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Eu sou homossexual e sou gay e sou bicha e maricas e paneleiro e durante muito tempo não quis ser nada disto. Durante muito tempo neguei tudo isto porque à minha volta não tinha exemplos da normalidade de o ser.

Estudei desde os 3 aos 18 num colégio católico, maioritariamente de pessoas de direita; tinha uma paróquia onde fiz campos de férias e por isso, até me ter mudado para Coimbra, à minha volta o que muitas vezes ouvia era como o que eu sou era menor, odiável, reprovável, absurdo, contra-natura, nojento.

À custa de ser como sou já me cuspiram, bateram, insultaram, enxovalharam, perseguiram e me fizeram muitas vezes acreditar que eu era menor por isso.

E adorava poder dizer que isso já não acontece mas até mesmo entre homossexuais já ouvi dizer para me deixar de paneleirices, que os homens não choram, que sou um mariquinhas.

Até mesmo na minha área, que supostamente é mais liberal, já me disseram que não queriam trabalhar comigo porque eu era muito bicha ou simplesmente porque era gay.

E por isso custa-me ver colegas a abdicarem do que são para se conformarem com a norma, que escondem os abraços e os beijos, os trejeitos e o à vontade, a sua liberdade para se ajustarem ao que está errado e que precisa de ser mudado.

E tem que ser mudado para que as pessoas não tenham que esconder o que são, para sentirem o à vontade de mostrarem quem são. Para que o médico, o advogado, o futebolista, o trolha, o actor ou o padre possam simplesmente ser.

É à custa de tanto ser ocultado e nada aceite que apanhei miúdos em desespero, sem saber o que fazer, com medo de represálias no seio familiar; para quem, tal como eu, o escape seguro é o padre que está ali ao lado e com quem se tem uma relação (que no meu caso mesmo não sendo pedófila, foi de poder) e que no dia seguinte está na homilia a criticar aquilo que se fez na noite anterior.

A primeira vez que tive uma interacção consciente com outro homossexual senti-me tão mal que me lavei com lixívia e tudo porque eu precisava de ser desinfectado.

Tive uma família que me amou e que me ama, que me aceita. Aceitou quem levei lá a casa. Fui também fazendo a minha família através dos meus amigos e das pessoas que me acompanham e com as quais eu discuto estes temas e que têm como eu a mesmo vontade de mudar o mundo, de o deixar melhor: mais compreensivo, mais amoroso, menos preconceituoso.

Isto tudo para dizer: amem mais, critiquem menos e apoiem cada um a ser como é e o resto que se foda.

obrigado Rui Junho 14, 2016

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(um texto simples que o Rui M. Pego pubicou ontem no facebook. a coragem de sair do armário de ser capaz de dar o corpo a esta luta num momento de dor é mesmo de salientar e de louvar. obrigado Rui.)

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“Há uns tempos um amigo perguntava-me: “o que é isso de ser figura pública? Já se qualificam como figuras públicas, as meninas apanhadas a fazer amor no Main?”

Dificilmente. Por mais que já se lhes conheça alguns ângulos mortos.

Conheço pessoas que dizem ser “figura pública por profissão”. Ou seja, existem, respiram, de forma… Pública. O seu trabalho é esse: oxigenar o sangue à frente dos outros.

Tudo bem. Cada um respira como quer. Menos aqueles que acabam mortos por não respirarem como é suposto.

E não estou aqui a fazer uma graça com asmáticos. Morreram 50 pessoas em Orlando – terra da Disney – que ousaram ser quem são dentro de um local que imaginavam seguro.

No fundo, respiravam. Lá na vida deles. Ligeiramente entrincheirados numa discoteca lá “deles”.

Para sempre “meio entrincheirados”.

Porque é sempre assim, não é? Morreram “aqueles”. Aqueles sírios. Aqueles turcos. Aquelas nigerianas raptadas e violadas pelo Boko Haram. Aqueles paneleiros que quiseram abanar-se ao som de Ariana Grande.

Não digo paneleiros para chocar. Digo-o porque as palavras têm vida; memória. Digo-o porque esses paneleiros são iguais a ti que estás a ler isto.

E são completamente iguais a mim; são pessoas.

Por circunstâncias escolhidas e herdadas, sou uma figura pública – por mais que o termo me faça rir.

Contudo, não desconto no IRS com croquetes e não apareço muitas vezes nas revistas que acabam esquecidas em salas de espera. Esse não é o meu trabalho.

O meu trabalho é público. Seja na televisão, ou na rádio, mas gosto de pensar que existe para promover discussão.

É por isso que escolho ter o desplante de falar disto às quase 60 mil pessoas que seguem esta página.

Coincide gostar de homens. Mas gosto mais de que toda a gente possa ser o que quiser, onde quiser, de que forma quiser, sem esperar um balázio na testa.

Não me parece pedir muito.

E eles não pediram muito. Quiseram só estar à vontade.

Não quero pôr um # a trendar.

Quero só que penses como, ao fomentar o ódio, vamos todos parar ao mesmo forno.

É só uma questão de tempo.

Não rezes por Orlando. Trata só os outros com o respeito que gostarias que tivessem por ti.”

agora sim. Fevereiro 29, 2016

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agora sim.

o estado me reconhece em igualdade.

(aqui fica o texto de toda a lei)

 

ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA

Lei n.º 2/2016 de 29 de fevereiro

Elimina as discriminações no acesso à adoção, apadrinhamento civil e demais relações jurídicas familiares, procedendo à segunda alteração à Lei n.º 7/2001, de 11 de maio, à primeira alteração à Lei n.º 9/2010, de 31 de maio, à vigésima terceira alteração ao Código do Registo Civil, aprovado pelo Decreto -Lei n.º 131/95, de 6 de junho, e à primeira alteração ao Decreto -Lei n.º 121/2010, de 27 de outubro.

A Assembleia da República decreta, nos termos da alínea c) do artigo 161.º da Constituição, o seguinte:

Artigo 1.º

Objeto

A presente lei elimina as discriminações no acesso à adoção, apadrinhamento civil e demais relações jurídicas familiares, procedendo à segunda alteração à Lei n.º 7/2001, de 11 de maio, à primeira alteração à Lei n.º 9/2010, de 31 de maio, e à vigésima terceira alteração ao Código do Registo Civil, aprovado pelo Decreto -Lei n.º 131/95, de 6 de junho

 

(aqui fica o texto de toda a lei)

da vontade das mulheres Novembro 26, 2015

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Da vontade das mulheres

Amanhã será votado o alargamento do acesso às técnicas de procriação medicamente assistida a todas as mulheres.

 

Portugal está prestes a atingir o primeiro patamar da igualdade – aquele onde a posição perante a lei é exatamente a mesma para qualquer pessoa, independentemente da orientação sexual ou de qualquer categoria de discriminação. Foram muitos os degraus para aqui chegarmos. Na semana passada, foi dado um passo fundamental com o alargamento do acesso à candidatura à adoção a todos os casais; amanhã será votado o alargamento do acesso às técnicas de procriação medicamente assistida (PMA) a todas as mulheres.

Até hoje, Portugal escolheu proibir (e punir) o acesso de algumas mulheres – todas as que não estejam casadas ou unidas de facto com homens – a tratamentos de fertilidade e a técnicas tão simples quanto a inseminação artificial. Porquê limitar a aplicação de técnicas de PMA existentes a casos clínicos de saúde reprodutiva em contexto heterossexual quando o acesso democratizado às mesmas servirá para ajudar a fazer nascer mais crianças – e em última análise para tornar mais pessoas felizes? Até agora, e desde 2006 (ano da primeira lei sobre PMA), esta pergunta tem ficado sem resposta. Aliás, aquando da votação em 2012 de projetos que pretendiam alargar o acesso a estas técnicas a todas as mulheres, Eurico Reis, atual Presidente do Conselho Nacional para a Procriação Medicamente Assistida, perguntava precisamente se seria legítimo usar o poder repressivo do Estado para veicular preconceitos. A resposta é simples, e é a mesma, desde sempre – não, não é.

Desde logo, a vontade de discriminar e de, pelo Estado, impor preconceitos sobre o que deve ser uma família não é legítima e tem sido crescentemente contestada – porque o alargado debate dos últimos anos tem mostrado o consenso científico sobre o exercício da parentalidade por casais do mesmo sexo, mas também porque é hoje claro para grande parte das pessoas que a igualdade perante a lei é uma questão de Direitos Humanos. A vontade de discriminar já não é, portanto, aceitável. A partir do momento em que é claro que a validade de uma família não assenta na orientação sexual das pessoas adultas mas sim nas relações de amor e respeito que prevalecem no núcleo familiar, é impossível também manter uma posição limitada sobre a finalidade da utilização das técnicas de PMA.

Infelizmente, não surpreende que a orientação sexual esteja tão claramente presente nos últimos resquícios legais de um quadro legislativo que apenas há uns anos era fortemente discriminatório. Mas na verdade também não surpreende que a última discriminação na Lei – a que impede mulheres de acederem a um procedimento médico simples – recaia sobre mulheres. Desde logo lésbicas, claro, porque também diz respeito a casais de mulheres; mas sobretudo a mulheres, a qualquer mulher que tenha vontade de engravidar e não o queira fazer com um homem.

Será sequer discutível a ideia de que as mulheres devem poder decidir iniciar uma gravidez com recurso às técnicas médicas existentes? A resposta a esta questão parece-me também simples e muito óbvia: não. Trata-se de respeitar a vontade de uma mulher – ou de duas mulheres. Talvez seja este o motivo para que esta seja a última discriminação a cair. Ao contrário da candidatura à adoção, onde a discriminação existente dizia respeito a casais de mulheres ou de homens, o acesso às técnicas de PMA diz respeito apenas a mulheres, nomeadamente a mulheres cuja vontade de serem mães pode não depender de homens. Que homofobia e sexismo andam a par, não é novidade. Que o machismo esteja tão profundamente enraizado talvez seja surpreendente.

A ILGA Portugal tem feito ao longo de muitos anos vários comunicados públicos sobre este assunto, na maioria dos quais a referência a Espanha é obrigatória; porque na verdade, no país vizinho desde 1988 que as técnicas de PMA estão disponíveis para qualquer mulher que as queira utilizar. 1988: significa que uma criança gerada nessa altura tem hoje 27 anos. Espanha compreendeu há quase três décadas a mais simples noção do que deve ser respeitar a vontade das mulheres – e desde aí, tem servido como porto de abrigo a milhares de mulheres portuguesas, muitas que atravessavam a fronteira para interromper uma gravidez, e outras que ainda a atravessam para poder iniciar uma gravidez.

O nosso país está agora em condições de, pelo contrário, passar a respeitar as nossas vontades, os nossos direitos, a nossa autonomia, a nossa saúde sexual e reprodutiva.

A partir de amanhã, sim, Portugal será um país que garante direitos iguais a todas as pessoas – e cuja lei não retira dignidade nem humilha ninguém. A partir de amanhã, seremos iguais perante a lei. A partir de amanhã, qualquer lei que seja feita passa a ser feita para incluir todas as pessoas porque a discriminação na lei nunca mais será sequer tolerável. A partir de amanhã, todas as vontades contam. Sim, as das mulheres também.

Presidente da Direcção da ILGA Portugal

Género Sexualidade e Afetos (revista Configurações) Setembro 17, 2015

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Foi publicada recentemente uma nova edição da revista Configurações editada pelo Centro de Investigação em Ciências Sociais (da Universidade do Minho). Desta feita estamos perante um número monográfico intitulado Género Sexualidade e Afetos  (organizado por Ana Maria Brandão e José Manuel Resende) que torna público um conjunto interessante de textos (ver índice abaixo). Como habitual em muitas das publicações periódicas académcias os textos estão publicado on line e podem ser acedido aqui.

Entre os seus textos destacaria o artigo de Tânia Machado “À vista (des)armada: casais de mulheres e expressão pública dos afetos” sobre expressões de carinho de casais lésbicos em espaço público que nos abre portas de reflexão e investigação sobre uma temática que vale uma maior atenção por parte de cientistas sociais.

Destaco igualmente a densidade e a problematização acerta (diria eu) que António Fernando Cascais nos dá no texto “O malogro da beleza, ou uma incapacitação crítica da homonormatividade” em que a problematização sobre a “imposição” de determinados modelos estético-eróticos na população “gay” se desmonta e problematiza de um modo premente neste texto.

Aqui fica uma das passagem mais  interessantes da crítica de Cascais:

“Alguns contributos podem ser de imprescindível utilidade para aparelhar aquilo que gostaríamos de chamar uma incapacitação crítica dos efeitos homonormativos do modelo estético-erótico de beleza/juventude. Antes de mais, impõe-se reconhecer que a dominância e a autoridade social dele, que não uma real hegemonia a que faltam condições suficientes que permitam perfazê-la, se encontram eficazmente limitadas pelo crescimento de identidades que definitivamente não se regem por parâmetros eugenistas e melhoristas, tais como, e tão-só a título de exemplo, as comunidades dos “ursos”, BDSM, leather, girth and mirth, transgénero e transsexual, bem como a comunidade lésbica inteira que sempre foi fortemente refratária a qualquer infl uência do modelo geracionista gay. A sua simples existência deve constituir um óbice à pretensão de representarem de forma universalizante a diversidade intrínseca das comunidades LGBTQ, ou, se assim quisermos, das “multitudes queer” (Preciado, 2003: 24), exclusivamente através das imagens uniformizadoramente “apresentáveis” do modelo estético-erótico, ao preço da anulação de todos os affreux que são delas excluídos. Genericamente, pode dizer-se que estes grupos se encontram nas melhores condições para desenvolver práticas de desidentificação, as quais se traduzem por outras tantas estratégias de sobrevivência que lhes permitem resistir a modelos de identificação socialmente prescritivos que têm por efeito a homogeneização e a assimilação de identidades queer, mas que, na mesma base teórico-política, podem ser aplicadas às forças homonormativas atuantes no interior das comunidades gay sempre que elas têm idêntico efeito homogeneizador e assimilador, como pode ser o caso do modelo estético-erótico.”

 ***

 Índice

Ana Maria Brandão e José Resende

Género, sexualidade e afetos

Pedro Bóia, Lígia Ferro e João Texeira Lopes

Clubbing e construções identitárias de género: proposta de um quadro analítico

Luís Santos

Homens e expressão emocional e afetiva: vozes de desconforto associadas a uma herança instituída 

Tânia Cristina Machado

À vista (des)armada: casais de mulheres e expressão pública dos afetos

António Fernando Cascais

O malogro da beleza, ou uma incapacitação crítica da homonormatividade

espaços queer e cinema Julho 30, 2013

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A 17ª edição do festival Queer Lisboa terá a sua secção Queer Focus dedicada às questões relacionadas com cidade e sexualidade. Estarei por lá participando no debate. Aqui fica uma ideia do programa desta secção.

“Esta secção pretende oferecer um olhar à relação entre as diferentes realidades pessoais e comunitárias de indivíduos queer, com as políticas sociais e os efeitos da crise económica e da gentrificação que afectam o mundo nos dias de hoje.

Destaque neste programa para a estreia da longa-metragem grega Boy Eating the Bird’s Food(Grécia, 2012, 80’), um arrojado e comovente retrato do percurso de um jovem que perde tudo, na Atenas de hoje. Esta secção contará também com um debate que procurará abordar estas questões enquadradas na realidade portuguesa.

Programação completa da Secção Queer Focus:
The 727 Days without Karamo (Áustria, 2013, 80’), de Anja Salomonowitz
Boy Eating the Bird’s Food (Grécia, 2012, 80’), de Ektoras Lygizos
Gut Renovation (EUA, 2012, 82’), de Su Friedrich
Mondomanila (Filipinas, 2012, 75’), de Khavn
Wildness (EUA, 2012, 74’), de Wu Tsang

 

 

DE QUE GÉNERO SE QUEREM OS AFECTOS Julho 1, 2013

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A minha querida amiga, e pessoa que muito admiro, Ana Cristina Santos, socióloga e investigadora do Centro de Estudos Sociais, Universidade de Coimbra, publicou ontem no Publico um texto de opinião em torno do debate sobre sexualidade e co-adopção. Aqui fica o texto:

DE QUE GÉNERO SE QUEREM OS AFECTOS

Ana Cristina Santos

“O reconhecimento de uma variedade de orientações sexuais e relacionais, com identidades de género diversas, é o caminho para uma sociedade mais justa, porque inclusiva. Esse é o trilho jurídico que Portugal tem seguido. Mas a transformação cultural – a igualdade de facto – é um processo lento e porventura escorregadio. A coexistência de leis justas e atitudes discriminatórias sucede porque o preconceito se reproduz, tentacular e resiliente, a partir de muitos lugares quotidianos. Acontecimentos recentes ilustram este argumento. No programa Prós e Contras sobre coadoção em casais do mesmo sexo (27 maio), António Marinho e Pinto, bastonário da Ordem dos Advogados, repetiu, veemente: os afetos têm género. Procurava-se assim justificar a necessidade de proteger “a criança”, essa categoria utilizada de forma difusa e artificialmente homogénea em nome de um bem supremo que não carece de protocolo ou validação posterior (nem anterior).
Quando se fala em homoparentalidade – o exercício das responsabilidades e direitos parentais por parte de pessoas ou casais não heterossexuais – “proteger a criança” parece reportar-se a uma urgência em precaver famílias diversas (como já o são, de resto, muitas das famílias em que sempre cresceram crianças). Este raciocínio não é recente (recordemos debates sobre a lei da adoção em 2003), nem informado, apoiando-se em mitos demagógicos que invocam 1) a ausência de modelos masculinos e femininos – sem que se esclareça o que se entende por cada um deles –, 2) a orientação sexual por legado hereditário e 3) o estigma irreversível. Sobre estes fantasmas já a Organização Mundial de Saúde e a Associação Americana de
Pediatria, entre outras instituições, emitiram pareceres com sustentação empírica que apaziguariam os espíritos mais inquietos. Em suma, a comunidade científica reconhece que as crianças absorvem modelos de género entre pares e a partir das pessoas adultas signifi cativas; que a heterossexualidade não é genética (nem a homossexualidade, já agora); e que as crianças integram bem a diversidade. Por exemplo, o Australian Study of Child Health in Same-Sex Families, realizado na Universidade de Melbourne e divulgado este mês, demonstra que crianças criadas em famílias não heterossexuais revelam melhores indicadores de bem-estar e coesão familiar quando comparadas com as restantes.
No caso da coadoção, o argumento contra a alteração jurídica é particularmente insustentável, ao recusar que o Estado alargue as responsabilidades parentais à mãe ou pai não biológicos com quem a criança já vive – sempre viveu – em família. Tal perspetiva veicula um preconceito histórico arreigado, cujas molduras estão amplamente estudadas.
Na resposta, quem defende o direito à parentalidade procura apaziguar o mito de que, num contexto homoparental, “a criança” carecerá de referências masculinas ou femininas. Nessa justa tentativa, Mário Cordeiro, pediatra, num vídeo que circula nas redes sociais, afi rma que quando um pai embala está a ser (simbolicamente) mãe, e que quando uma mãe leva a criança ao parque infantil está a ser (simbolicamente) pai. A emenda padece de um mal semelhante ao do soneto pouco sofisticado: tendo por protagonista a mãe ou o pai, a metáfora alicerça-se em dois géneros, dois necessariamente, dois apenas, e quem dita as diretrizes sobre cada um deles é a natureza – a ordem natural das coisas, na mundivisão de Marinho e Pinto –, ou a cultura.
Entretanto, o regime de género permanece incontestável. Como se fosse uma insensatez perigosa questioná-lo, sobretudo quando se invoca o superior interesse de uma criança abstrata, destinada a ser esculpida menino ou menina, consoante a genitália e, logo depois (por vezes antes ainda), nos padrões das cortinas do quarto primeiro, nos brinquedos, nas roupas, nos acessórios (ou ausência destes).
O regime de género, com variações geográficas de acordo com o legado histórico de cada país, consiste no acordo jurídico, cultural e político que estabiliza as categorias de género, fazendo-lhe corresponder papéis, responsabilidades e expectativas sociais dependentes de uma classificação que nos é, em rigor, alheia.
Ninguém participa no processo métrico que determina o género que lhe é atribuído à nascença. Pelo contrário, por via burocrática o género cola-se-nos ao corpo como um rótulo, um carimbo atribuído por outrem, um dado anterior ao contacto visual entre mãe biológica e criança. Constituindo o lado B da biopolítica, o regime de género é o que lhe confere legitimidade quotidiana, uma aura de necessidade prudente, de que tem que ser assim porque sempre foi assim (mesmo quando nunca foi assim). Mas o regime de género depende também da sua repetição, precisa de cúmplices, agentes de implementação e vigilância que lhe conferem autoridade e se exprimem em contextos múltiplos – a consulta pré-natal, a sala de partos, o berçário, a escola, o centro de ATL, o desporto ao fim de semana, a cabeleireira do bairro, o WC do restaurante, a divisão sexual do trabalho religioso, o registo civil.
Regresso ao ponto de onde parti. Defender o regime vigente de género para proteger “a criança” é incorrer numa violação dos direitos de todas as crianças. Desproteção é negar a todas as crianças o direito de ver garantido pelo Estado o reconhecimento de que a sua família de facto também é família de direito, de que não são crianças de segunda, de que os seus pais ou as suas mães são justamente isso, família. Acresce que o modelo estreito de família nuclear – mãe e pai casados e reprodutivos – não corresponde sequer ao amplo cenário das famílias nas sociedades contemporâneas. Já em 2001, esse modelo equivalia a apenas 22% das unidades familiares no Reino Unido. Os resultados definitivos dos Censos 2011 para Portugal apontam no mesmo sentido. A fantasia heteronormativa resvala perante a realidade.
Em 2013, enfim, a sociedade portuguesa não se revê na Lição de Salazar, publicada no Manual de Educação em 1938, e que projetava uma visão binária da realidade familiar, em que os papéis sociais estavam colados ao corpo domesticado que os desempenhava, obediente. Hoje sabemos que, tal como a criança é heterogénea, também os géneros são muitos e as famílias diversas. Sempre foram. A diferença é que agora essa multiplicidade de género, sexual e relacional transbordou, denunciou o estigma, perdeu o medo, adquiriu um lugar próprio no Princípio da Igualdade da Constituição da República Portuguesa. E a dignidade humana não é negociável.”

paramos a austeridade… greve geral! Junho 23, 2013

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cartaz gg 27jun - 12

No dia 27 de Junho, próxima quinta feira, teremos uma greve geral. Uma greve geral contra austeridade sem fim, contra a imposição de uma politica neocolonial da troika. uma greve geral pelos direitos sociais e políticos, uma greve geral pela defesa intransigente do estado social. Nesse sentido  12 organizações juntaram-se para apelar em conjunto à participação na Greve Geral.

São elas:  o SPGL, o Sindicato CENA, a ATTAC Portugal, a Ass. de Estudantes do ISCTE,o Ass. de Profissionais do Regime de Amas, a Ass. Comunidária, o SOS Racismo, a UMAR, a não te prives – Grupo de Defesa dos Direitos Sexuais, a Panteras Rosa e a Associação de Combate à Precariedade – Precários Inflexíveis juntam-se assim numa ação de convergência em torno de uma Greve Geral muito importante para derrotar a austeridade.

(também aqui)

Um arco-íris contra a crise Junho 21, 2013

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 cartaz

Amanhã realiza-se em Lisboa mais uma edição da marcha do orgulho LGBT de Lisboa. Pela décima quarta vez se assinala a data de 28 de Junho 1969 e a sua fulgurante, divertida, colorida e animada revolução.

Este é o momento de luta por excelência de visibilidade do movimento LGBT. Momento de sair à rua, e dizer ao que vimos. Resolvi simplesmente destacar os textos que o blogue da marcha de Lisboa foi publicando nos últimos dias; e assim esse arco-íris de lutas que marca o que é hoje o movimento e a luta LGBT.

O reconhecimento de uma variedade de orientações sexuais e relacionais, com identidades de género diversas, é o caminho para uma sociedade mais justa, porque inclusiva. Esse tem sido o caminho jurídico que Portugal, na esteira de outros países, tem seguido. Mas sabemos que a transformação cultural – a igualdade de facto – é um processo muito lento e porventura mais escorregadio. A coexistência de leis justas e atitudes discriminatórias sucede porque o preconceito se reproduz, tentacular, com a cumplicidade individual e institucional proveniente de muitos lugares quotidianos(não te prives – Grupo de Defesa dos Direitos Sexuais)

A revolução será queer ou não será. Somos todxs corpos, pessoas, animais, pokemon, dragões, feiticeir*s e elfos domésticos e junt@s faremos a revolução! Vestidas ou despidas, pretas ou mulatas, com varinhas ou choques trovão saímos para dizer que queremos abolir a crise e a austeridade do nosso vocabulário. (…) Queremos mudar a língua e visibilizar *s ainda invisíveis: *s piratas do género, *s transtornad*s, os transespecistas, os corpos estranhos e, por isso, ainda mais bonitos, *s que não têm vontade de fazer sexo, mas nem por isso serão púdicos, mas principalmente, *s que, com austeridade, nem mais um dia aguentam. (Exército de Dumbledore)

A Associação de Estudantes do ISCTE-IUL representa a totalidade dos seus estudantes, pautando a sua atividade pelos valores da igualdade, democracia e liberdade, considerando a diferença um dos princípios centrais da sua estrutura. Assumimos o compromisso de combater qualquer forma de discriminação ou penalização de estudantes em consequência de escolhas e orientações individuais e existimos para construir um espaço inclusivo e democrático em que a liberdade e o direito de escolha sejam valores centrais para a comunidade académica.(Associação de Estudantes do ISCTE-IUL)

Porque este orgulho que temos não é como o dos “outros”. A lógica mantém-se e precisa-se ainda de orgulho em oposição à vergonha e ao silêncio. E não, continua a não ser o mesmo que “orgulho hetero” ou “orgulho branco” de pessoas privilegiadas que nunca sentiram vulnerabilidade proveniente de terem uma identidade de género/sexualidade incompatível com o status quo.(Bichas Cobardes)

Por isso esta Marcha LGBT de Lisboa, tem o combate à crise e aos seus responsáveis no seu centro. Por isso vir para a rua no dia 22 de junho, é uma passo fundamental para a visibilidade de todos os direitos que faltam conquistar e a afirmação clara de que o capitalismo e a democracia formal que vivemos provaram que não servem como sistema. Não servem para a justiça social, não servem para a redistribuição da riqueza produzida, não servem para garantir igualdade de direitos entre orientações, identidades e proveniências de classe, não servem para garantir que o planeta e os seus recursos naturais são preservados para as gerações futuras. (Panteras Rosa – Frente de Combate à LesBiGayTranfobia)

O mote da Marcha LGBT este ano como não podia deixar de ser é: Arco-Íris contra a crise. Porque esta capa que nos venderam da “inevitabilidade da crise” e consequentemente a “inevitabilidade das medidas de austeridade” que todos os direitos permitem que sejam atropelados afecta-nos a todos e precariza ainda mais quem já de si sustentava um equilíbrio frágil nesta sociedade discriminatória. (Precários Inflexíveis)

Num ano marcado pela aprovação parlamentar da coadoção em casais do mesmo sexo e pelo crescente apoio à candidatura a adoção por casais do mesmo sexo, marchamos uma vez mais pela visibilidade das pessoas LGBT e das suas famílias, sempre no plural. E continuaremos a marchar com cada vez mais força pelo igual reconhecimento das nossas realidades e projetos familiares – e pela proteção adequada das nossas crianças. (Associação ILGA Portugal – Intervenção Lésbica, Gay, Bissexual e Transgénero)

No dia a dia, a lésbica, como todas as mulheres, sofre uma pressão para cumprir os papéis sociais que o patriarcado lhe tenta impor, o dever da reprodução e de cuidadora, reduzindo-as a isso mesmo, unidades de produção e preservação de mão de obra. Tentando diminuí-las, segregando quando não pretendem encarnar, somente, esses papeis tradicionais(Clube Safo)

É do conhecimento geral que, em tempos de crise, quem mais a sente são, regra geral, as minorias e grupos mais desfavorecidos. Com a presente crise a regra confirma-se. Assim, a juntar ao boicote feito pelos “especialistas” mais conservadores à lei de alteração de nome e sexo, que à revelia do espírito da lei só passam a declaração necessária para o efeito depois de terem dois relatórios de transexualidade, somam-se os casos em que as pessoas pura e simplesmente não têm o dinheiro necessário para proceder à respectiva alteração, desde que o o governo actual anulou a gratuidade do procedimento. Escusado será dizer que, simplesmente por o serem, as pessoas transexuais são das mais causticadas pelo flagelo do desemprego junto com os desempregados com idades a partir dos quarenta. (GTP – Grupo Transexual Portugal)

Saímos à rua no sábado por saber que é necessário resolver a inadequação das estruturas de saúde em relação à população homo, bi e trans. Parte da população LGBT afasta-se dos cuidados médicos por receio de discriminação e/ou por não sentirem as suas necessidades reconhecidas. A expressão da orientação sexual e identidade de género dos utentes é essencial para uma boa avaliação das suas necessidades ao nível da saúde sexual(GAT – Grupo Português de Ativistas sobre Tratamentos do VIH/SIDA)

O heterossexismo contra o qual a Marcha luta é também parte da cultura que força a monogamia como único modo de vida digno de respeito. O PolyPortugal entende que as lutas não podem ser fragmentadas, porque também o problema não é fragmentado: machismo, (hetero)sexismo e mono-normatividade andam de mãos dadas e alimentam-se mutuamente. Se pessoas de diferentes credos, cores de pele, ou de sexos iguais, vêm hoje (parcialmente) reconhecido o seu direito a ter e viver as suas relações, isso aponta para uma mudança, cultural e pessoal, no significado de “amor” e de “relação”. Nada há de errado com a monogamia, ou com a heterossexualidade – os problemas surgem quando umas formas de vida implicam discriminação face a outras. (PolyPortugal)

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