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da mudança e da permanência Agosto 6, 2017

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“O que causará a visão insólita de um sorriso de um estranho, cruzado há séculos numa rua anónima e desde então esquecido? Porque ressurge tão vívida e colorida a imagem de cestos de uvas numa vinha? A de uma sala onde só estive momentos? Que mecanismo me faz ouvir de novo o ladrar de um cão numa noite de inverno?

(…) O que ainda me resta será provavelmente feito de trivialidade, rotina, medo crescente. Mais também não espero.

Enquanto poder manterei este vadiar solitário, que se tornou um calmante. Vou caminhando e pouco a pouco pesam-me menos as culpas, surpreendo-me por vezes a sorrir. Descrente de que possam ser tão exíguas as diferenças entre o eu do menino e o do homem quase velho.

Então não mudei com o passar dos anos? No essencial, pouco ou nada. E os muros da prisão em que me sinto, talvez os não tenha levantado eu próprio, como pensei. Mais certo é ter nascido dentro deles, tomando por liberdade o que não passava de quimera.”    

“A Amante Holandesa” de J. Rentes de Carvalho, edição de bolso da Bertrand Editores, 2016, pp. 31-32 (li de 21/07 a 22/07 de 2017)

 

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hei-de cantar-vos a beleza um dia Maio 1, 2016

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Acusam-me de mágoa e desalento,

como se toda a pena dos meus versos

não fosse carne vossa, homens dispersos,

e a minha dor a tua, pensamento.

 

Hei-de cantar-vos a beleza um dia,

quando a luz que não nego abrir o escuro

da noite que nos cerca como um muro,

e chegares a teus reinos, alegria.

 

Entretanto, deixai que me não cale:

até que o muro fenda, a treva estale,

seja a tristeza o vinho da vingança.

 

A minha voz de morte é a voz da luta:

se quem confia a própria dor perscruta,

maior glória tem em ter esperança.

 

Carlos de Oliveira

Soneto – “Mãe Pobre”  in Trabalho Poético, Livraria Sá da Costa Editora, 1998, pp. 46.

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Teresa Veiga Abril 17, 2016

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Foi a descoberta literária de final de 2015. O nome é Teresa Veiga. Parece que se sabe pouco sobre a sua biografia. Já a sua obra está presente desde 1981, ano da publicação de “Jacobo e outras histórias” (foi recomendado para publicação pelo júri do Prémio Literário Círculo de Leitores) e tem nestas mais de três décadas enriquecido a ficção nacional com belíssimos contos.

Muitas vezes centradas em personagens/narradoras femininas, estas curtas aventuras ficcionais prendem o leitor nos pequenos pormenores de quotidianos rurais, ecoando por vezes sonoridade camilianas em espaços essencialmente beirões.

Tropecei primeiro na nova edição da Tinta da China do livro “Uma aventura secreta do Marquês de Bradomin” a que se seguiram nos últimos meses os livros de contos  “Jacobo e outras histórias”, “História da Bela Fria”, “O último amante”; e a novela “A paz doméstica”.

Tenho por ler o mais recente livro que publicou, “gente melancolicamente louca” que lerei mais adiante no ano. Quem sabe no areal de Odeceixe no Verão.

Mas espero sinceramente que a Teresa Veiga não deixe de escrever e publicar. Apesar de a ter descoberto tardiamente quero muito continuar a lê-la.

(pmr 27) desse lado o mar sobe ao coração Março 12, 2016

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peso

QUASE BRANCO

 

Caminha devagar:

desse lado o mar sobe ao coração.

Agora entra na casa,

repara no silêncio, é quase branco.

Há muito tempo que ninguém

se demorou a contemplar

os breves instrumentos do verão.

Pelo pátio rasteja ainda

o sol. Canta na sombra

a cal, a voz acidulada.

 

Eugénio de Andrade in “O Peso da Sombra”, Assírio e Alvim, Lisboa, 2015, pp.59

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(cfp) International Colloquium in Geohumanities: “Closing Circles, Open Horizons” Março 8, 2016

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geoh

International Colloquium in Geohumanities

“Closing Circles, Open Horizons”

Barcelona, October 19th-22nd

 

We invite postgraduate researchers, academics, activists, artists, and practitioners from across disciplines to contribute to the International Colloquium in Geohumanities, a three-day conference organized by the Association of Spanish Geographers, and the Catalan Geographic Society. We accept contributions in English and Spanish.

We invite to present papers from any of the wide aspects that could include the geohumanities . As a matter of orientation we suggest here a series of general topics that could include all kind of interpretations and a great diversity of interdisciplinary approaches.
Art and Cartography: Different forms of representation of spaces and places, form the use of the cartography to the visual arts and the their interactions.

Geography, creativity, experimentation and innovation: Creativity and experimentation forms linked to the uses, interpretations and emotions of anything geographic.  Spatial elements of the new forms of information acquisition and the new geographies derived of the Big Data.

History, Memory; Geographical aspects of the interpretation of the past and the construction of collective and individual memories.

Gender, bodies and sexualities: Realities, implications and agencies of the subject in the construction of spaces from the gender and sexuality perspective.

Geography, Media, and Social Networks: New forms of representation, dissemination and communication of geographical knowledge and its space-time relations.

Landscape, architecture: Different ways of reading, and understanding, environments, and geographic and non-geographic spaces. Cultural and phenomenological approaches to the analysis of landscapes.

Nature, Environment and Humanities: Different approaches to analyse the relationship among individuals, societies, and the natural environment.

 

For further information please check de colloquium website or contact geohumanidades@upf.edu

uma memória toda retorcida pela sensibilidade Março 6, 2016

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IMG A Gata e a Fábula_0007.jpg

Descobrira-se uma memória toda retorcida pela sensibilidade, positiva ou negativa, e ficavam-lhe vivos nos sentidos certos olhares, certos gestos, certas palavras, certos «fazer-de-conta», certos assomos de rebeldia, certas perplexidades de que ele, na devida altura – mísero humano de compreensão lenta e ciência comum -, não adivinhava o alcance e a consequência. Mais tarde, sempre se espantava de ter olhado sem se ver o que já havia indicativo nas reacções previas, e então percebia como o subconsciente agira indeliberado e se revelava sábio e quase divino no seu poder de adivinhação.

“A gata e a fábula”, Fernanda Botelho, Contexto, 1987, 5ºedição, pp.155-156

o magnífico arco para iniciar o poema Fevereiro 28, 2016

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disp

 

“Quantos metros quadrados de terreno te separam do ódio, ou do elogio? 

No entanto sabes que a lâmpada acesa é o farol para quem se aproxima da casa. 

Depois, o tiro na têmpora. O corpo dobrado, o sangue alimentando o coração surdo da terra.

O magnífico arco para iniciar o poema.”

 

Al Berto, “Dispersos”, Assírio e Alvim, 2007, pp.39

(pmr26) hoje vou acreditar que ao escrever Fevereiro 28, 2016

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PornografiaComum

 

Não sei se recordo

 

não sei se recordo ou se estou cego

mas juro pelos meus olhos que serei teu

e se a minha vida existir depois prometo ser anjo

até ao céu branco que arde na boca

 

***

Tempo visível

 

dos pés à cabeça

voltar ao corpo

e ao tempo visível e

indesculpável

dos corações imberbes

e fingir

com os cabelos brancos

e os testículos de lapela

 

***

Hoje vou acreditar

 

hoje vou acreditar que ao escrever

o nome de um pássaro branco

o teu silêncio fascinado

se atira ao mar

com estas asas

 

“Pornografia Comum” de Joaquim Cardoso Dias, Gulliver, 2015 pp. 15, 29 e 37

(pmr25) ao espelho Fevereiro 28, 2016

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clara

(…)

Ver-me ao espelho neste momento é ter sido agora.

 

Ter sido em simultâneo com a imagem de eu ser,

ou ser na decalagem do reflexo de ter sido;

 

ver-me e saber que não sou quem eu vejo,

que a imagem de mim é vítrea miragem,

 

que o meu corpo reflectido é estilhaço de cristal

no passado ainda próximo onde o presente é vivido.

 

O reflectido já de si está perdido de antemão –

ou estaria se o nácar não brilhasse toda a tarde

 

na luz madrepérola que cintila no espelho,

iluminando o instante em que já não sou eu.

 

Frederico Lourenço, “Clara suspeita de luz”, Caminho, 2011, pp.26

 

Ou então a literatura é uma batata Fevereiro 21, 2016

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“Nós, escritores, trabalhamos com palavras. Não nos é lícito ignorar que podem ser uma arma de força terrível ou terrivelmente frágeis. Podem apoucar as verdades ou revelar-lhes os gumes mais finos e luminosos. O nosso ofício consistem em escolher as palavras, utilizá-las no momento exacto, atenuá-las, engrandecê-las, dominá-las. E o que são as palavras? Língua, linguagem, povo, oralidade, escrita, herança literária. A reestruturação da técnica narrativa ou poética tem que conhecer até ao pormenor a matéria de que serve. Ou então a literatura é uma batata”

Carlos de Oliveira, “O aprendiz de feiticeiro”, pp.66, Livraria Sá da Costa, 4ºedição, 1995