jump to navigation

um dia explodo em verbo Maio 15, 2017

Posted by paulo jorge vieira in poemas.
Tags:
1 comment so far

writing.jpg

Aquele poema que quis escrever não sai da minha cabeça.

Ficou preso. Incapaz de se tornar verbo. Preso na minha incapacidade de perder o medo. E de ter a coragem de vomitar a alma.

Mas… esse medo é demasiado presente. Demasiado aqui. Demasiado paralisante. Demasiado…

Um dia, quem sabe! Um dia, a voz grita. Um dia explodo em verbo. E assim me faço algo melhor.

Um dia…

regressarei com o lume do rio a guiar-me Maio 15, 2017

Posted by paulo jorge vieira in poemas, poesia, Uncategorized.
Tags: ,
add a comment

5676018807_42cf53e927_z

prometo-te que uma noite voltarei, sem bússola, regressarei com o lume do rio a guiar-me, e que os olhos pousarão nos teus olhos este frémito de água. acredito nas ruas que existem por detrás dos óculos dos marinheiros, onde descansa um barco e tu foges, não acredito em ti. um fio de água enforca-nos. foi então que resolveste prosseguir viagem sozinho, com a tua adolescência um pouco ferida. eu acreditei no fogo e no silêncio que, de manhã lavam os corpos, tornando-os de novo navegáveis. esperei, ainda te espero. ando por aí a mariscar com os nativos, escondendo do mundo a tristeza que me devora o corpo.

Al Berto, Excerto de «Roulottes da Noite de Lisboa»

 

(pmr30) “Escrevo” Janeiro 2, 2017

Posted by paulo jorge vieira in poemas, poesia, Uncategorized.
Tags: ,
add a comment
1460383584391971
Escrevo já com a noite
em casa. Escrevo
sobre a manhã em que escutava
o rumor da cal ou do lume,
e eras tu somente
a dizer o meu nome.
Escrevo para levar à boca
o sabor da primeira
boca que beijei a tremer.
Escrevo para subir
às fontes.
E voltar a nascer.
Eugénio de Andrade in “Os Sulcos da Sede”

(pmr29) o circuito inevitável das coisas ociosas Março 21, 2016

Posted by paulo jorge vieira in poemas, poesia, Uncategorized.
Tags: , ,
1 comment so far

 

12805949_1540546592941684_8578888832569203248_n

 

Fazemos o circuito

inevitável das coisas ociosas

sem sentido.

 

Corpos a ranger

transparentes e leves

sem memória

e sem apelo.

 

Suburbanos e ausentes

continuam na tarde quente

tão inúteis

como agora.

 

Incompletos mesmo

partituras negras

monótonos, betonizados

e sem perdão possível.

 

(pmr28) estou escondido na cor amarga do fim da tarde Março 21, 2016

Posted by paulo jorge vieira in poemas, poesia, Uncategorized.
Tags: , ,
add a comment
amarga.jpg

estou escondido na cor amarga do
fim da tarde. sou castanho e verde no
campo onde um pássaro
caiu. sinto a terra e orgulho
por ter enlouquecido. produzo o corpo
por dentro e sou igual ao que
vejo. suspiro e levanto vento nas
folhas e frio e eco. peço às nuvens
para crescer. passe o sol por cima
dos meus olhos no momento em que o
outono segue à roda do meu tronco e, assim
que me sinta queimado, leve-me o
sol as cores e reste apenas o odor
intenso e o suave jeito dos ninhos ao
relento



valter hugo mãe
estou escondido na cor amarga do fim da tarde

(pmr24) aos poucos foram sendo conhecidos juntamente Outubro 3, 2015

Posted by paulo jorge vieira in poemas, poesia.
Tags: , ,
add a comment

tumblr_myweunhYsl1qhodu2o7_500

Aos poucos foram sendo conhecidos juntamente

Nos ríspidos círculos da classe a que pertenciam

Aos poucos também, a troco da paga decorativa

De vários livros de verso e alguns de ensaio,

Atenuaram-lhes as consabidas ironias e acusações.

Com o tempo vieram as fotografias nos circuitos

De massificação, chegou a haver semanas em que padeciam

Escritos elogios que davam notoriedade sem suspeita.

Nas pistas múltiplas das artes e das noites,

Até antigos desconhecidos, até estáveis malquerentes

Diziam: “os dois poetas”. Antes queriam

Ser tratados pelo nome ou pelo só indicativo

Da profissão que padeciam por a reconhecer

O melhor lenitivo para a obsessiva

E neurotizante dedicação em exclusivo

À chamada profissionalização dos escritores:

«os dois poetas», contudo, semi-servia

para neutralizar outras sevícias.

Mas quando os carros exigiam marcações

na empresa dum mecânico vizinho

às vezes no telefone pousado chamavam

com voz abafada pelo patrão: são «os dois paneleiros»

Embora sempre afável atendesse às avarias.

A voz voava do recanto de contabilidade

forrado a calendários com poses pneumáticas

por sobre tubos de escape, soldaduras, jactos, latões.

baterias, broquins, desperdícios, alavancas;

e a gordura negra, um filtro gasto, malsão.

Assim os conheciam por lá, quiçá por outros becos.

E ambas as designações os faziam sorrir.

Mas se fossem de repartição ou a prazo numa firma

Ou até doutra mecânica qualquer? Ou de pequena cidade?

Ou de grupo de jardim com reformados?

Trata-se, é claro, da inútil função social da poesia.

Joaquim Manuel Magalhães

In Alguns Livros Reunidos, pg 124 – 125, Contexto, Lisboa, 1987

(pmr) tu Maio 7, 2015

Posted by paulo jorge vieira in Jorge Christina Alves, poemas.
Tags:
1 comment so far

arrabida

Hoje o dia corre devagar.

E o poema és tu.

Duro na presença.

Quente no corpo.

Carinhoso na voz.

Doce na língua.

O poema és tu!

(Jorge Christina Alves 25*03*2015)

“My Body” Abril 26, 2015

Posted by paulo jorge vieira in musica, poemas.
Tags: ,
1 comment so far

PerfumeGenius

“My Body” ( Perfume Genius)

I go hungry
Pick at the shell
Paw the bottom
Of the well

I wear my body

I go bottom
Struggle for air
I go humming
‘Like A Prayer’

I wear my body

I wear my body like a rotted peach
You can have it if you handle the stink
I’m as open as a gutted pig
On the small of every back
You’ll see a picture of me
Wearing my body

I go guzzle
Scrap from the bin
Take it all
On the chin

I wear my body

(pmr) existe Abril 13, 2015

Posted by paulo jorge vieira in Jorge Christina Alves, poemas, poesia.
Tags:
add a comment

holograma

Existe um eu, um tu e um nós.

Existem um sentido da dor, e da vivência para além da mesma.

Existe esse mundo lá fora e a vontade expressada construção de um sentido para as coisas.

Existe isso tudo mas seremos nós (eu e tu) capazes de ir além do nós e ver o que está para além desse nó.

Existe?

Talvez nem exista nada disso e sejamos apenas um holograma vazio de possibilidades imensas!

(Jorge Christina Alves)

em memória das palavras de Herberto Helder Março 24, 2015

Posted by paulo jorge vieira in poemas.
Tags: ,
2 comments
em memória das palavras de Herberto Helder
hh

As Palavras

Ficarão para sempre abertas as minhas
salas negras.
Amarrado à noite,
eu canto com um lírio negro sobre a boca. Com a lepra na boca,
com a lepra nas mãos.
Este mamífero tem sal à volta,
este mineral transpira, a primavera precipita-se.

Com a lepra no coração.
Mais de repente,
só chegar à janela e ver uma paisagem tremendo
de medo.

E uma vida mais lenta
só com uma estrela às costas,
uma tonelada de luz inquieta,
uma estrela respirando como um carneiro
vivo. Igual a esta espécie de festa dolorosa,
apenas um ramo de cabelos violentos
e o seu odor a pimenta,
no lado escuro
como se canta que as salas vão levantar
o seu voo.

Ficarão para sempre abertas estas mãos exageradas
em dez dedos com sono,
como uma rosa acima do pénis.

Ao cimo do caule de sangue,
essa flor confusa.
Um equilíbrio igual,
só a estrela ao cimo do êxtase.

Só alguma coisa parada no cimo de uma visão
tremente.
A primavera, que eu saiba,
tem o sal como cor imóvel,

Por um lado entra a noite,
assim de súbito negra. De uma ponta à outra enche-se o espaço
aplainando tábuas.
Rasga-se seda para aprender o ritmo.
Abraço um corpo com as camélias
a arder.

Abertas para sempre as negras partes
de mais uma estação.

Semelhante a isto
as mulheres andam pelas galerias transparentes,
e o palácio queima a noite onde estou
cantando.

É possível ainda cortar ao meio o ofício de ver —
e num lado há espelhos bêbedos,
no outro um cardume ilegível de sons
obscuros.

Sabe-se então pelo silêncio em volta,
sabe-se em volta que são lírios
sonoros.

Passando
as mulheres colhem estes sons irrompentes,
e as mãos ficam negras junto à beleza
insensata.

Elas sorriem depois com um talento
terrível.
Levamos às costas um carneiro palpitante.

Pesa tanto uma estrela
quando se acorda nas salas negras abertas de par em par,
e as mãos agarram um ramo de cabelos dolorosos,
e sobre a boca um lírio em brasa,
branco, branco,

que não nos deixa respirar.
A lepra na boca,
que não nos deixa respirar.

Um ramo de lepra contra o corpo,
como isto então só o movimento de águas obscuras
pelos canais de um canto,
como um palácio de salas negras abertas
para sempre.

Este animal respira como um espelho de pé,
no ar,
no ar.