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(pmr33) a solidão dos homens cansados Janeiro 9, 2019

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The Tired Man (c.1956) Robert Dickerson

A

cada dia que passa me sinto mais fatigado. Um

homem procura ternura

no seu regresso a casa (um

homem não vê o instante em que despe

o ultraje) quando

sai de pés descalços pelo soalho da tarde em

busca de um

copo de olvido. Um homem conhece a casa

pelo gato à janela –

duas pupilas acesas sentam-se

à mesma mesa

sentam-se à mesa da alma. E a casa recebe o homem

com uma noite sempre nova

(um homem entrega tudo a quem o

salve do exílio)

quem lhe aplaque a solidão que existe nos

homens cansados.

“Nómada” de João Luís Barreto Guimarães, Quetzal, Lisboa, 2018, pp. 65

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o poema é o que no homem para lá do homem se atreve Setembro 13, 2018

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Natália Correia (13/09/1923-16/03/1993)

O poema
O poema não é o canto
que do grilo para a rosa cresce.
O poema é o grilo
é a rosa
e é aquilo que cresce.

É o pensamento que exclui
uma determinação
na fonte donde ele flui
e naquilo que descreve.
O poema é o que no homem
para lá do homem se atreve.

Os acontecimentos são pedras
e a poesia transcendê-las
na já longínqua noção
de descrevê-las.

E essa própria noção é só
uma saudade que se desvanece
na poesia. Pura intenção
de cantar o que não conhece.
Natália Correia, em “Poemas”. 1955.

(pmr) … nada quero, tudo enjeito, o maior bem me aborrece… Junho 19, 2018

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Nada quero, tudo enjeito,

o maior bem me aborrece,

o prazer me entristece

e o viver, porque é sujeito

a quem dele assim se esquece:

se morro acaba o mal,

fim não queria ver;

se vivo, o padecer

desta dor é tão mortal

que me não posso valer.

 

(poema anónimo português do século XVI)

FUNERAL BLUES Março 19, 2018

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FUNERAL BLUES

 

Parem todos os relógios, desliguem o telefone,

Não deixem o cão ladrar aos ossos suculentos,

Silenciem os pianos e com os tambores em surdina

Tragam o féretro, deixem vir o cortejo fúnebre.

 

Que os aviões voem sobre nós lamentando,

Escrevinhando no céu a mensagem: Ele Está Morto,

Ponham laços de crepe em volta dos pescoços das pombas da cidade,

Que os polícias de trânsito usem luvas pretas de algodão.

 

Ele era o meu Norte, o meu Sul, o meu Este e Oeste,

A minha semana de trabalho, o meu descanso de domingo,

O meio-dia, a minha meia-noite, a minha conversa, a minha canção;

Pensei que o amor ia durar para sempre: enganei-me.

 

Agora as estrelas não são necessárias: apaguem-nas todas;

Emalem a lua e desmantelem o sol;

Despejem o oceano e varram o bosque;

Pois agora tudo é inútil.

 

W.H. Auden

poema com tradução de Maria de Lourdes Guimarães

 

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(pmr32) eu escrevi um poema triste  Setembro 10, 2017

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Tristeza

Eu escrevi um poema triste 
E belo, apenas da sua tristeza. 
Não vem de ti essa tristeza 
Mas das mudanças do Tempo, 
Que ora nos traz esperanças 
Ora nos dá incerteza… 
Nem importa, ao velho Tempo, 
Que sejas fiel ou infiel… 
Eu fico, junto à correnteza, 
Olhando as horas tão breves… 
E das cartas que me escreves 
Faço barcos de papel! 

Mário Quintana, in ‘A Cor do Invisível’

(pmr31) o corpo não espera Setembro 9, 2017

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O corpo não espera. Não. Por nós
ou pelo amor. Este pousar de mãos,
tão reticente e que interroga a sós
a tépida secura acetinada,
a que palpita por adivinhada
em solitários movimentos vãos;
este pousar em que não estamos nós,
mas uma sêde, uma memória, tudo
o que sabemos de tocar desnudo
o corpo que não espera; este pousar
que não conhece, nada vê, nem nada
ousa temer no seu temor agudo…

Tem tanta pressa o corpo! E já passou,
quando um de nós ou quando o amor chegou.

“O corpo não espera” de Jorge de Sena

um dia explodo em verbo Maio 15, 2017

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Aquele poema que quis escrever não sai da minha cabeça.

Ficou preso. Incapaz de se tornar verbo. Preso na minha incapacidade de perder o medo. E de ter a coragem de vomitar a alma.

Mas… esse medo é demasiado presente. Demasiado aqui. Demasiado paralisante. Demasiado…

Um dia, quem sabe! Um dia, a voz grita. Um dia explodo em verbo. E assim me faço algo melhor.

Um dia…

regressarei com o lume do rio a guiar-me Maio 15, 2017

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prometo-te que uma noite voltarei, sem bússola, regressarei com o lume do rio a guiar-me, e que os olhos pousarão nos teus olhos este frémito de água. acredito nas ruas que existem por detrás dos óculos dos marinheiros, onde descansa um barco e tu foges, não acredito em ti. um fio de água enforca-nos. foi então que resolveste prosseguir viagem sozinho, com a tua adolescência um pouco ferida. eu acreditei no fogo e no silêncio que, de manhã lavam os corpos, tornando-os de novo navegáveis. esperei, ainda te espero. ando por aí a mariscar com os nativos, escondendo do mundo a tristeza que me devora o corpo.

Al Berto, Excerto de «Roulottes da Noite de Lisboa»

 

(pmr30) “Escrevo” Janeiro 2, 2017

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Escrevo já com a noite
em casa. Escrevo
sobre a manhã em que escutava
o rumor da cal ou do lume,
e eras tu somente
a dizer o meu nome.
Escrevo para levar à boca
o sabor da primeira
boca que beijei a tremer.
Escrevo para subir
às fontes.
E voltar a nascer.
Eugénio de Andrade in “Os Sulcos da Sede”

(pmr29) o circuito inevitável das coisas ociosas Março 21, 2016

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Fazemos o circuito

inevitável das coisas ociosas

sem sentido.

 

Corpos a ranger

transparentes e leves

sem memória

e sem apelo.

 

Suburbanos e ausentes

continuam na tarde quente

tão inúteis

como agora.

 

Incompletos mesmo

partituras negras

monótonos, betonizados

e sem perdão possível.