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(pmr32) eu escrevi um poema triste  Setembro 10, 2017

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Tristeza

Eu escrevi um poema triste 
E belo, apenas da sua tristeza. 
Não vem de ti essa tristeza 
Mas das mudanças do Tempo, 
Que ora nos traz esperanças 
Ora nos dá incerteza… 
Nem importa, ao velho Tempo, 
Que sejas fiel ou infiel… 
Eu fico, junto à correnteza, 
Olhando as horas tão breves… 
E das cartas que me escreves 
Faço barcos de papel! 

Mário Quintana, in ‘A Cor do Invisível’

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regressarei com o lume do rio a guiar-me Maio 15, 2017

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prometo-te que uma noite voltarei, sem bússola, regressarei com o lume do rio a guiar-me, e que os olhos pousarão nos teus olhos este frémito de água. acredito nas ruas que existem por detrás dos óculos dos marinheiros, onde descansa um barco e tu foges, não acredito em ti. um fio de água enforca-nos. foi então que resolveste prosseguir viagem sozinho, com a tua adolescência um pouco ferida. eu acreditei no fogo e no silêncio que, de manhã lavam os corpos, tornando-os de novo navegáveis. esperei, ainda te espero. ando por aí a mariscar com os nativos, escondendo do mundo a tristeza que me devora o corpo.

Al Berto, Excerto de «Roulottes da Noite de Lisboa»

 

(pmr30) “Escrevo” Janeiro 2, 2017

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Escrevo já com a noite
em casa. Escrevo
sobre a manhã em que escutava
o rumor da cal ou do lume,
e eras tu somente
a dizer o meu nome.
Escrevo para levar à boca
o sabor da primeira
boca que beijei a tremer.
Escrevo para subir
às fontes.
E voltar a nascer.
Eugénio de Andrade in “Os Sulcos da Sede”

forever young Outubro 13, 2016

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no final dos anos 80 o meu “eu” adolescente teve uma música muito especial. uma canção com letra e música de Bob Dylan, hoje premiado com o Nobel da Literatura. aqui fica o poema de “forever young”. e duas versões da música: a de Dylan e a minha preferida, a de Joan Baez.

May God bless and keep you always
May your wishes all come true
May you always do for others
And let others do for you
May you build a ladder to the stars
And climb on every rung
May you stay forever young
Forever young, forever young
May you stay forever young.

May you grow up to be righteous
May you grow up to be true
May you always know the truth
And see the lights surrounding you
May you always be courageous
Stand upright and be strong
May you stay forever young
Forever young, forever young
May you stay forever young.

May your hands always be busy
May your feet always be swift
May you have a strong foundation
When the winds of changes shift
May your heart always be joyful
And may your song always be sung
May you stay forever young
Forever young, forever young
May you stay forever young.

hei-de cantar-vos a beleza um dia Maio 1, 2016

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rain

 

Acusam-me de mágoa e desalento,

como se toda a pena dos meus versos

não fosse carne vossa, homens dispersos,

e a minha dor a tua, pensamento.

 

Hei-de cantar-vos a beleza um dia,

quando a luz que não nego abrir o escuro

da noite que nos cerca como um muro,

e chegares a teus reinos, alegria.

 

Entretanto, deixai que me não cale:

até que o muro fenda, a treva estale,

seja a tristeza o vinho da vingança.

 

A minha voz de morte é a voz da luta:

se quem confia a própria dor perscruta,

maior glória tem em ter esperança.

 

Carlos de Oliveira

Soneto – “Mãe Pobre”  in Trabalho Poético, Livraria Sá da Costa Editora, 1998, pp. 46.

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(pmr29) o circuito inevitável das coisas ociosas Março 21, 2016

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Fazemos o circuito

inevitável das coisas ociosas

sem sentido.

 

Corpos a ranger

transparentes e leves

sem memória

e sem apelo.

 

Suburbanos e ausentes

continuam na tarde quente

tão inúteis

como agora.

 

Incompletos mesmo

partituras negras

monótonos, betonizados

e sem perdão possível.

 

(pmr28) estou escondido na cor amarga do fim da tarde Março 21, 2016

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estou escondido na cor amarga do
fim da tarde. sou castanho e verde no
campo onde um pássaro
caiu. sinto a terra e orgulho
por ter enlouquecido. produzo o corpo
por dentro e sou igual ao que
vejo. suspiro e levanto vento nas
folhas e frio e eco. peço às nuvens
para crescer. passe o sol por cima
dos meus olhos no momento em que o
outono segue à roda do meu tronco e, assim
que me sinta queimado, leve-me o
sol as cores e reste apenas o odor
intenso e o suave jeito dos ninhos ao
relento



valter hugo mãe
estou escondido na cor amarga do fim da tarde

(pmr 27) desse lado o mar sobe ao coração Março 12, 2016

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peso

QUASE BRANCO

 

Caminha devagar:

desse lado o mar sobe ao coração.

Agora entra na casa,

repara no silêncio, é quase branco.

Há muito tempo que ninguém

se demorou a contemplar

os breves instrumentos do verão.

Pelo pátio rasteja ainda

o sol. Canta na sombra

a cal, a voz acidulada.

 

Eugénio de Andrade in “O Peso da Sombra”, Assírio e Alvim, Lisboa, 2015, pp.59

eugenio

:

(pmr26) hoje vou acreditar que ao escrever Fevereiro 28, 2016

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PornografiaComum

 

Não sei se recordo

 

não sei se recordo ou se estou cego

mas juro pelos meus olhos que serei teu

e se a minha vida existir depois prometo ser anjo

até ao céu branco que arde na boca

 

***

Tempo visível

 

dos pés à cabeça

voltar ao corpo

e ao tempo visível e

indesculpável

dos corações imberbes

e fingir

com os cabelos brancos

e os testículos de lapela

 

***

Hoje vou acreditar

 

hoje vou acreditar que ao escrever

o nome de um pássaro branco

o teu silêncio fascinado

se atira ao mar

com estas asas

 

“Pornografia Comum” de Joaquim Cardoso Dias, Gulliver, 2015 pp. 15, 29 e 37

(pmr25) ao espelho Fevereiro 28, 2016

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clara

(…)

Ver-me ao espelho neste momento é ter sido agora.

 

Ter sido em simultâneo com a imagem de eu ser,

ou ser na decalagem do reflexo de ter sido;

 

ver-me e saber que não sou quem eu vejo,

que a imagem de mim é vítrea miragem,

 

que o meu corpo reflectido é estilhaço de cristal

no passado ainda próximo onde o presente é vivido.

 

O reflectido já de si está perdido de antemão –

ou estaria se o nácar não brilhasse toda a tarde

 

na luz madrepérola que cintila no espelho,

iluminando o instante em que já não sou eu.

 

Frederico Lourenço, “Clara suspeita de luz”, Caminho, 2011, pp.26